lúcia

Quando ela nasceu, o primeiro sorriso foi pra mim.

O músculo orbicular dos olhos se contraiu, levantando o prócero e o corrugador do supercílio, enquanto o zigomático maior distendia-se pelo maxilar, abrindo uma pequena fenda: tímida, mas sem dúvida alguma feliz.

Aos pouquinhos abriram-se também os olhos. Brilhavam, tão cintilantes que lhe deram nome de clareza: Lúcia.

Pequenina, estendia os braços a quem quer que fosse. Buscava, desde criança, um algo que a fizesse se sentir inteira. Sentir-se Alcançada.

Mas não se viu encontrada.

Os braços eram curtos, as distâncias compridas, a mãe foi trabalhar longe, acabou por se perder na vida, e Lúcia crescera com a vó que não demorou a partir.

No orfanato, os braços se estendiam novamente: arrumava a cama, guardava as tralhas, lavava a louça, dobrava as toalhas, agora sim ela seria Aprovada!

Mas não se viu encontrada.

Os olhares eram todos vagos, ninguém lhe dava trela: ô menina escura, limpa aqui, e ai se queimar a panela! Não deu pra ela. Certa noite, deu a mão pro silêncio e fugiu pela janela.

Na rua, seus braços se estendiam nos faróis; não demorou a vender bala, a mando de um garoto por quem se apaixonara. Agora sim, ela seria Alimentada.

Mas tampouco se viu encontrada.

O garoto lhe tomava o dinheiro, pra ela não sobrava nada. Comia coisa ou outra que lhe davam na calçada, até que uma mulher lhe deu um livro preto, tirou uma foto e levou-a pela mão.

No templo, os braços do povo estavam pra cima. Lúcia sentia um quentinho no peito, do qual o nome não sabia, mas lá estava, quem sabe agora, finalmente, ela seria Abençoada.

Mas não se viu encontrada.

Menina, você pergunta muito. Menina, você se veste pouco. Menina, cadê o dízimo? Menina, esconde esse corpo! Não deu pra ela. O quentinho esfriou, a porta se abriu, à rua voltou.

Descobriu que vender bala rendia menos que vender quem era. Lúcia dos Olhos Brilhantes, sua nova fachada, e entregou-se de corpo e (sem) alma pro ofício de ser Abraçada.

Desencontrada.

Os braços não estendiam mais. Só os daqueles homens que, dela, pediam “ais”. Perdeu a paz. De si mesma só queria o esquecimento – olhar pra um espelho jamais!

Lúcia estava esgotada. Não se sentia inteira, não se sentia nada. Numa noite, nos quases da alvorada, conversava com o vazio e não viu o carro que vinha na direção contrária.

Então se encontrou, no chão.

O músculo orbicular dos olhos se contraiu, rebaixando o prócero e o corrugador do supercílio, enquanto o zigomático maior distendia-se pelo maxilar, fechando uma pequena fenda: tímida, mas, nada. Os braços se estenderam na estrada.

Lúcia está no céu. Os olhos ainda brilham, como os de amantes.

Encontrada.

Não tem mais nome, não tem mais corpo, é apenas luz. E palavras.

Enquanto ela percorre um rio celeste, envolta por campos de morango, eu me lembro daquele dia quando ela sorriu pela primeira vez, pro alto. Quando ela sorriu pela primeira vez, pra mim.

Mal sabia ela que, naquele instante, eu respondia: pequena, você sempre será Amada.

 

(en)

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30

deus, obrigado pela caminhada até aqui.

eu, que erro o passo, machuco pessoas, que não me reconheço no espelho; eu, que preciso de perdão, recebi 30 lindos anos de ti. obrigado, deus.

obrigado pela redenção. por minha necessidade dela. pela escassez eterna.

que eu consiga me esvaziar de mim, do egoísmo, da falta de empatia, da hipocrisia, e que sua presença cresça. que o amor faça sentido, ainda que eu não entenda. que eu o perceba.

que eu sempre lembre de que a grandiosidade da vida vem de ti; de que a graça da vida vem de ti, do alto – nunca de mim. de que qualquer fagulha de beleza é teu reflexo. de que “ser luz” na vida de outras e outros é, antes de tudo, buscar sua luz, perfeita, e refletir-lá, cá, em todo o lugar. uma pequena fração dela. a fração possível, a fração humana.

perdoa a minha humanidade. obrigado pela minha humanidade, que me faz sentir a dor dos pregos. e pela escrita.

que a busca cesse e eu me sinta destruído, apenas, quando o espírito transcender corpo, lágrima e frustração. quando reencontrarmos nossa natureza essencial – a imagem e semelhança de um ser feito de luz e palavras; quando, enfim, formos somente luz e palavras.

minha oração aberta de gratidão, em nome de jesus: amém.

seremos

e houve um momento em que o barulho era ensurdecedor, e se queria muito, e tudo, e todos falavam ao mesmo tempo, e diziam o indizível possível do querer a, mais b, mais c, mais d, mais disso, mais daquilo, e sempre mais, e nunca mas, e sempre, e tanto, que mesmo em face do maior enquanto, não se achava canto algum pra se parar e pensar, só querer – era tudo um grande, grato, gratificante, simples e sonoro – sim! sim, sim, sim, e assim que se pode perguntou-se “quem és”, e foi dito: “id”. por todo o mundo. e fazei o que quiser, tanto na judeia, na samaria, e até os confins da terra, pois nem tudo é da lei.

e houve um momento em que o silêncio era ensurdecedor. e tudo era de uma ordem incrível e um progresso estarrecedor; e não havia formas arredondadas, tudo tinha canto, conto e hora marcada, e havia rimas raras e bem articuladas – pense num mundo quadrado, pense, pense mais um pouco, pense numa caixa – não, pense dentro da caixa, calma, mais pra direita, isso, existem leis, regência verbal, vernáculo essencial, recatado, idolatrado – salve, salve! e perguntou-se “quem és”, e foi dito, sussurrado, super baixo: “super ego”.

e houve um momento em que se olhou no espelho. eu. meu. deus. eu, meu deus. eu sou meu deus, eu, seu, meu, eu? não seu. não sei. quem és. quem é. quem sou. eu.

e houve um olhar pro céu. que não era seu mas era possível. que não era meu mas me queria. e não queria tudo, todo barulhento;  e não me queria contanto houvesse silêncio. queria assim, leve, tal qual eu… estou.

e perguntei-lhe “quem és”. e foi dito: eu sou.

.
e todo o resto se aquietou.

.

(en)

totacidade

arte de rua
é parte tua
e parte nossa

do fino
à fossa

e vai de lá à cá

das galerias
às galerinhas

do belo
ao beco

do longe
ao perto

do branco
ao preto

do cinza
à cor

do traço
à dor

do preço
ao pixo

do luxo
ao lixo
e ao luxo de novo

e do pincel
ao spray

da liberdade
à lei

da tinta
ao grafite

do espaço
ao lugar

da inspiração
à piração

da piração
à ação

do todo
à parte

do lodo
à arte

urbana
fulana
ciclana
profana
beltrana
mana

arte
que
existe

parte
que
resiste

à totacidade.  

 

(en)

pai nosso, cristãos no céu,

“santificados”, sujam vosso nome.

veio a nós avesso reino,

~seja feita a nossa vontade~

assinam na terra como seu.

ó, pai nosso, de cada dia nos dá o “hoje”!

doa nossas ofensas assim como doemos

por quem tem sido ofendido.

e não nos deixes; caímos em tanta ação!

mas, livres… somos do mal.

 

em nome de jesus: amem.

 

(en)

eu sou

eu sou ela

eu sou manuela.

eu sou um ventre possível,

de um ventre provável,

de um vento infinito.

eu sou ela, eu sou tantas!

flávia, ana, que completa liliana,

que um dia

será cantora,

ou faxineira,

ou não.

ou solteira, ou de rondônia,

ou, simplesmente, aquela lá:

belíssima.

eu sou cecília,

papel, caneta e luta,

eu sou inteira.

eu sou ela

não sei fazer lasanha

mas sou ela

não tenho filhos,

mas sou ela

eu sou elas

eu sou todas

eu sou outra

eu sou esta

à imagem e semelhança

eu sou,

eu sou o que sou:

filha

de deus mãe.

.

(en)

ouve o dia

“haverá o dia”

eu sempre disse,

e houve,

e o vi como qualquer outro;

 

ouvi, então, aquela voz

que tem a cor

do nosso interior

dizer “tenta de novo”.

 

e houve o dia,

e era como qualquer outro,

mas eu o vi.

 

e vê-lo, assim, “havendo”,

fez com que o visse

de maneira que o dia, enfim,

houvesse.

 

e vi que era muito bom.

 

(EN)

o menino que nascera duas vezes

era um menino
que nascera duas vezes.

a primeira foi de ventre
de sangue
debaixo da ponte

a segunda foi de vento.

mãe na rua,
mão na roda
nasceu de dores difíceis
e logo se pôs a andar,
tentar, pedir,
e outros infinitos
infinitivos

dia sim não dormia
dia não semeava
es-colheu andar
com gente que
não tinha sonhos,
também.

e fez besteira,
daquelas de só fazer uma vez,
mas o dia era da farda
deu flagrante, xilindró,
de menor,
pela primeira vez foi pra “casa”.
penou pra viver
fez planos sem olhar,
anos e anos
de dedo na cara.
nos longínquos dezoito,
a ansiedade
pra ver como reagia
à liberdade, enfim.
pôs os pés pra fora

a mãe tava no céu
a mão tava no bolso,
vazio.

mas o peito não estava mais vazio.
o olhar, finalmente, subiu do chão
pro horizonte.
pela primeira vez na vida, ali de pé, ele sonhou.

o vento bateu no seu rosto.

e renasceu.

 

(en)

térmico

.
olhares desvanecem.

parece-se um ciclo quase a encontrar a outra extremidade.

olhar no olho nem precisa procurar para achar a alma.

alma no olho.

corações palpitam sossegados:

somos eu, ela, e eu e ela.

desatamos porque, desatáveis,

puxamos as cordinhas olhando um para o outro.

aos poucos,

fornalha em fogo brando,

uma ponta minha cá,

uma ponta dela lá,

puxando infinitamente.

acompanho com o olhar.

(EN)

mais cara

.
eu mascaro
tu mascaras
eu mascaro
tu mascaras

eu mais caro
tu mais caro

qual, qual é teu preço?

não, não esconde não!
tô te vendo aí na penumbra, atrás desse óculos de acetato e nariz postiço!

qual é teu preço?

e você também aí de faixa no olho, cara coberta, acha que me engana?

qual é o preço?
quanto você custa?
quanto custa, pra você, se esconder assim?

tem vergonha de quanto vale?
tem medo de barganha?

então mascara pra ficar mais cara?

não…

buscando a mais-valia da humana condição sem lembrar que o amor do mais perfeito é doação
– não tem pedágio, não tem senão, não é baile mascarado: mostra a cara, vai aberto – coração!

mas sei que tá errado esse mundo de ilusão;
não é desse jeito que se vive, meu irmão.

e me desculpe, por favor, o meu tom de acusação
– é assim que eu mascaro toda a minha solidão.

e chega. de rimazinha.
e desse ritmo batido que respeita a ortografia.

e me desculpem. a poesia.
é assim que eu disfarço toda a minha hipocrisia.

tirei. a máscara.
tirei. a roupa.

joguei.

no vento.
nu. vento.

nudez.

medo.

sem acusação.
sem poesia.
só resta eu.

só.

ouço alguns passos, tem gente vindo aí.
alguém me empresta uma roupa? rápido! alguém? por favor!

alguém. alguém tá vindo aí. um só.

olha meu estado, por favor!

quem tá aí?

tá vindo alguém que parece rimar com

luz.
cruz.
conduz.

que vergonha, tô pelado, tô sem nada. alguém, por favor…

oi?

pegou pela mão. posso ir assim? tá.
só queria saber quanto custa o passeio, porque eu tô uma desgraça.

ah…

é (de) graça.

 

(EN)

catártico

.
nada fará sentido se não for pela loucura.

olhe ao redor.

percebe tudo confluindo para o norte?

e você, com medo da morte,

a seguir o fluxo antes que te gritem “volte à fila!”

e você se mantém

se obedece

se contém

se entristece

mas limpa a lágrima pra não levar advertência

– tudo, tudo, tudo é bom em sã consciência!

e você  crê nessa porca verdade

sem pensar na consequência

– chega de rimar!

gente que mente pra vender mais,

parecer mais

agradar mais

perecer não vai?

vai também – tudo conflui para o norte

como o fim deste texto que se aproxima…

ah, o texto.

o escrever.

limitado pelas palavras, pela sanidade,

quisera eu ser louco e trocar tudo por

vã liberdade.

.

e acontecerá.

(EN)

li que doi

.
é

aguar

teu líquido

líquido olhar, ah!

como é líquido teu passar

teu permanecer liquida meu agir

mas, mais que tudo, é líquido te alcançar.

teu barco-navio lá distante, indo avante, pelo mar

meu barco-jangada à deriva, chora as ondas, em céu-luar

e teu líquido, quem me dera, algum dia, qualquer dia, a brindar

com todo meu líquido, de sobra, que dia-a-dia eu tratei de preservar.

tudo líquido, tudo ínfimo, tudo desmancha, tudo evapora, tudo me molha

quando eu

só lido

com você

a sublimar.

.

(EN)

amem

.
não se medem coisas.

medimos nós mesmos

frente às coisas.

no mundo, é mensurável o que nos toca.

no mundo, tem textura o que se toca.

eu nunca medi

paz

viagem à disney

furacão.

eu já medi

saudade

amor de mãe

tribulação.

e o motivo, afinal, de toda poesia existir

é a busca

da textura

do amor.

(mil gerações passarão

tempo e bonança sobrevirão

toda a constelação de morte

toda a ressureição de vida

– tudo

e

– todos

milimetricamente medidos,

cada um no seu lugar.

e no alto de uma colina

debaixo de uma árvore

com cenho angustiado,

coração-amargura:

um poeta

ainda buscará a textura)

.

(EN)

A minha dança será teu pranto

.
Vejo o vento. Não sinto o vento, vejo.

Não sinto e vejo, apenas vejo – é aleatório e branco.

Sinto a lua. Não vejo a lua, sinto.

Não vejo e sinto, apenas sinto – é certeira e branca.

A história mais bonita da história

É o corpo a bailar pelado

Em noite de lua cheia.

Tem a fogueira e o mar

Tem areia e luar

Não tem fumaça, nem fumo, nem torpor

– Só mente e corpo, a rodar e a rodar e a rodar.

A dança chamou-se luz

Eu me chamei lucidez.

O movimento flui com o vento, é visível, como o vento, como o mar.

Ninguém o vê.

Ninguém o verá.

E na senda de cascalho e pedra, na altura do horizonte escuro

Onde o céu encontra a lua que encontra o vento que encontra o mar,

Todo o que é errante

Todo o que é incerto

Todo o que é perdido

Se encontrará.

.

(EN)

.
exatamente assim que se começa,

sem exatidão.

nascer não é morrer ao contrário:

morrer é nascer à milésima potência.

mambembe, o fim se aproxima num cachorro manso à cata de migalhas.

com a roupagem de um deus troglodita

que tudo começa

que tudo termina.

.

(EN)

Como escrever um poema

.
Não precisa de muito. Junte umas palavras, começo, assim, e deixe no início para chamar atenção. Advérbios caem bem.

“Exatamente assim que se começa”

Chamou atenção, precisa prendê-la. Brinque com um paradoxo.

“Sem exatidão”

Atenção retida, é preciso jogá-la pra outro canto do esperado. Surpreenda com assunto aparentemente desconexo do tema.

“Nascer não é morrer ao contrário”

Enunciado carece de explicação. Poeta não explica, expele – coloque o leitor à beira do abismo e unja-o com raro aforismo:

“Morrer é nascer à milésima potência”

Não o empurre ainda. Terminar quando tem que terminar é prosa. Poesia é contrário. Presente vem do inesperado – dispender beleza inesperada, isto é presentear.

“Mambembe, o fim se aproxima num cachorro manso à cata de migalhas”

E então você o empurra.  Do começo ao fim , o que se aguarda é queda. Vai durar três versos:

“Com a roupagem de um deus troglodita”

Fé surpreende o leitor desavisado, que agora mora em  seus versos. Permita-o morrer em paz.

“que tudo começa”

Permita-o morrer em paz!

“que tudo termina”.

.

(EN)

……………Tenho um segredo que se chama silêncio. A minha voz, a minha poesia oculta-o como um baú. Sou palavras, demonstro. Sou expressão e cadência, mas a essência é nada senão sem-voz.

Enterrada sob os versos de terra
sob os solos do verbo
sob o barro da fala
sob o intervalo das frases de areia.
De grão em grito, de tom em tons de granito, permaneço
secretamente
em silêncio.

……………E haverá o dia de se achegarem ao chão, cavarem a terra, pousarem as mãos nuas no segredo assim guardado. O dia haverá em que vão-me perguntar. E a beleza de toda a prosa será esta: não sendo palavra, calará.
.
(EN)

Jamais vou tirar minha vida: ela já fez morada em mim (pelo menos em duas ocasiões; era pequeno, ajoelhei ao pé da cama, as mãos estavam juntas como um livro fechado. Na outra sentado na escada, grama em volta, tinha um livro no colo. Eram 15 de janeiro de um ano bom). Jamais vou tirá-la, mas não nego respeito aos que conseguem. Fácil generalizar na covardia. Impossível conceber angústia infinita. Você já concebeu? Angústia. Infinita. Eu sei que não. Tua vida é rasa, tua mente pequena. Não vai perscrutar o corpo auto-adormecido, jamais. Nem merece, vá embora. Vira a cara pro outro lado, vá ver televisão, passear com teu cachorro na rua.

A angústia infinita existe. É que a vida já fez morada em mim.

.

E.N.

Maria,

sinto lhe informar que o amor acabou. Andava murcho e calvo, cuidamos mal, esmoreceu. Como é que tinha dito padre Astolfo? Cuidas-te-vos do teu jardim e assim farás-vos-á flores prosperarem. Não era isso? Alguma coisa assim com mais mesóclises. Não cuidamos do jardim, Maria. Era tua e minha carga, não fizemos.

Não gosto da imagem do jardim. Gosto da imagem do gordinho. Você lembra? O amor é um menino gordinho. Tem que alimentar o menino pra se manter as bochechas, entuchar-lhe calorias com Sazón. Faltou Sazón, Maria. Faltou temperar o bife pro gordinho comer feliz e chacoalhar a barrigueta. Nosso amor não tem barriga. É esbelto, tem zero açúcar, IMC baixíssimo. Está sempre de dieta. Falo que te amo tal como compro pão. Virou rotina, Maria, da que se faz por obrigação. Amor não é pra ser assim – quando é, escreve-se esta carta.

Eu não te amo. Não quero mais te amar. Não gosto de gente mimada, amor é um gordinho mimado que quer tudo pra ele. E eu? E nós, Maria? Está acabando com “nós”. Não quero te perder, não vou te perder, muito menos pra ele. Não juramos ficar juntos até que a morte nos separasse? Só a morte, Maria. Te quero ao meu lado pelo resto da vida, só te peço isso: vamos desamar. 

Com amor (raspei a panela do que sobrou),

Ermínio.

.

E. N.

madeixa

.
deixei meu corpo ser a ausência que um dia sonhei.

deixei os olhos cerrados para não ver, só sentir.

deixei a alforria da alma me tomar de assalto e gorjear,

deixei me deixar.

deixei me deixarem!

deixei-me deixá-la sem sequer tê-la tido,

uma noite, só.

– foi tudo de um vazio inacreditável.

.

E. N.

.
diz-se da vida: extraordinária! tão grande!

– calma, pequeno.

deixe a vida caber na humanidade.

fraqueje os senões

afrouxe os poréns

a vida, tão grande assim, passa.

passa também sua vontade de abraçá-la inteira com dois braços abertos dane-se impossibilidade física financeira moral sou jovem vou fazer vou vencer vou viver

vendaval leva tudo!

e mais leve, tudo vai ficando na vida.

– lance é encontrá-la grande, pequeno.

e abraçá-la enquanto houver densidade.

.

E. N.

ausente

.
sabe bem descrever a sede;

quero, sim, a presença daqueles que sentem.

sinto muito, sinto tanto,

subo na cadeira pra sair na foto e sorrir – sem te machucar.

sem ofensas ou gestos bruscos

apenas sofre e sorri, sentindo. sem ter tido.

sugere-se uma noite sem sereno:

salva e sã, mia

(como gato sem sono, como lobo à lua)

luar percorrido assim

no ar socorrido, ai de mim!

em sussurros

a ciência da nossa ausência

cede.

.

E. N.

cantares da pretensa alvorada

.
lá me vem Vinícius cantar no ouvido,

calaboca!

não se sabe mais do amor porque se casa.

não se sabe menos porque se não namora.

Eros, meu caro

não deixemos cair o amor nas mãos do casal-minuto

casal-mesclado

casal-de-luto

casal-melado

nem nas da farsa hiperbólica, choros e promessas

da tal paixão convincente

ilusória.

dá-nos antes i-luz-ão!

Eros, tua arte simplesca é nunca simplória.

navegar sentido àlguém requer mais que respirar – e nos mentem.

dizem que é fácil, tranquilo

– vá-se foder, Vinícius!

cante no meu ouvido o desencontro.

cante! cante-já a renúncia

mise en scène burra da sociedade, medíocre, pareada.

que é das pessoas ímpares?

que é das completas?

chega de gente-metade; ajuda-me a achar completude!

o perdão de cada dia dá-me hoje

dá-me a mão, a busca do pretenso sol envolto de dúvida, se quiser;

não peço respostas.

ilumine meu coração sem dor, deus-amor.

ilumine meu corpo indecente

e aqueça a alma

indiferente.

põe-me no teu curral de sonhos, cavalga comigo naquele sol.

cuidarei do teu aprisco.

cuidarei dos teus ímpares desígnios,

melindre algum.

sem choro nem paixão. compaixão é pra nascer, sem paixão se vive.

seremos razão, meu Eros. escolha e razão, e seremos um.

indivíduo eu

de mãos dadas com o fim.

.

E. N.

milissegundo

.
“Cada novo segundo é tempo de recomeço”

ouvi da Liliana,

não da sua voz mas do seu perdão.

Quando estou mais perto do céu

– do espírito que se move na face das águas e no meu peito –

recomeço a cada segundo

a cada primeiro

velho erro

e último

novo perdão.

Repetem-se as merdas,

transbordam-se as graças

sem ao menos perguntar o porquê

– ou quando é que tudo vai parar de vez.

Não sei, meu Deus! Obrigado por nunca perguntar, meu Deus.

Pouco tempo e muita graça,

segundo-após-segundo:

Teu segundo-começo que me deste.

.

E. N.

charme sem destinatário

.
sempre preferi andar sozinho

nunca cansei de mim mesmo

da minha companhia.

falo com você enquanto falo comigo,

medindo palavras

medindo você.

pode ser sina ingrata essa de eu querer me bastar,

pode ser psicossomática

ou apenas capricho que me haverão um dia de desonerar.

enquanto não vem eu só meço você

(não pode ser alta)

rejeito você

desdenho você

prevejo você

anseio você

racionalizo você

dentro do meu todo eu, bastado.

sou todo charme sem destinatário

e isso me encanta.

–  ainda encanta, Elias?

.

E. N.

a virada (ou letra para um samba marrento)

.
e o futuro onde está?

tá casaaado

a procura acabou?

bem no siiim

e o não tão sonoro?

à procuuura

de uma moça prendada?

de um sim

(jogo pra ganhar, torço pra perder de virada

é mal gosto na boca, sinal de que fui pra noitada!)

minhas malas, senhor?

já partiiiram

e os postais pra rever?

tão no chão

essa mágoa porquê?

esforçou-te:

em tirar do impossível o seu pão

– e bora lá!

(jogo pra ganhar, torço pra perder de virada

se bater as seis e eu não chegar – chama o guarda!)

pra quêêê chorar?

pra quêêê sofrer?

só me explica, senhor, onde foi que deixei de quereeer?

por ooonde vai?

de ooonde vem?

vou seguir teu caminho até [tum] chegar o meu treeem

– e vou partir!

(jogo pra ganhar, perco pra torcer de virada

o meu dia chegou, tá na hora: partiu tudo-ou-naaada!) 3x

.

E. N.

cem expectativas

.
trivialidade

esse falar,

só se olhar nos olhos é verdade.

trivialidade esse ouvir

– baixar guarda, sim, é vontade.

não consegui te falar aquele dia

quando ainda era jovem e podia,

como faz pra esquecer?

vive-se assim na amargura sem saber por onde

pela senda que ninguém sabe se não se acende a luz

– ainda que se ascenda, cegueira.

ah!

trivial esse ver

tentar ver com palavras

– eu tento, sem expectativas.
.

e minto assim pra dormir em paz.


E. N.

a S. P.

nos tempos do cólera

escreva escreva escreva! escreva, poeta de Deus, escreva hômi!

– diz a massa ensandecida

queremos  tua palavra, tua escrita, ó poeta!

a mensagem divina pelas letras no papel, leitura de fel e do bom mel dos deuses, ó menestrel!

nos escreva – pedem.

e escrevo:

 

“a”

 

ele começa! nos abençoa com a primeira letra das letras,

vejam que o poeta escreve!

início, alfa do ômega, princípio do mundo e das coisas!

o poeta nos abençoa com o início!

 

“am”

 

ó, poeta, que honra temos nós de te ler.

já são duas letras, o casal

– ying yang da perfeita harmonia da Terra

 

“amo”

 

singeleza tua, ó nosso guia!

dizer que nos ama, assim, no poema

declarar a nós teu amor vário e solto, tão lindo de rosto!

a face do teu amar nos dirige nesse verbo, tão terno, conjugado “eu amo”

assim, a nós, no inverno – singeleza e ternura, poeta, que tens para nós e

 

“amor”

 

enfim! enfim! ah, enfim!

povos, escutai! nações se prostrem! que o mar acalme sua força na bonança doce,

que os feitos dos homens se reduzam a memórias,

que nada aplaque a força das quatro letras proferidas aqui, Poeta. nosso Poeta, sejas louvado!

se desta poesia fazemos nossa vida, tu és agora o que nos cria;

causa primeira e fagulha perene de nossa causa poética!

escreve-nos a nós do teu amor, esse que te brota e constroi-se no peito e que acalma

 

“amora”

 

e que acalma os mares e…

e…

e que acalma…. Poeta?

ó, poeta! poeta que nos escreve, que nos profere a mensagem!

longe de nós desafiar tua vontade, tua caneta e teu papel voraz, mas é possível ter havido acréscimo de letra!

falávamos de teu amor e dos teus feitos, da tua glória amorosa que nos cria e nos ama e

 

“é amora mesmo”

 

e…

…e que. nos. ama? e que não nos ama? prefere fruta ao bel-sentimento? blasfêmia! não mais te queremos, poeta! poetinha! sem amor!

recolhamos, pois, as oferendas e despojos. galguemos um criador de mais respeito, mais semântico; que nos profira a verdade, a Verdade Verdadeira.

passar bem!

 

“amora é mais saudável. vão por mim”.

 

.

(en)

deus, conjuga-se

No princípio era a palavra, e a palavra estava com deus, e a palavra era deus. Ela estava no princípio com deus. E percorria os campos e a boca dos homens, e a palavra estava no homem. E o homem tentou engolir a palavra pelo fruto. Tentou-se mesmo construir o algo mais alto pela palavra única; o algo mais “maior-que-o-homem” pra se ganhar os céus e chegar a deus. Mas deus já estava no homem. Era o verbo. Que não era o homem mas estava no homem. Que não era seu mas falava. Então a palavra saiu do homem. Foi escrita. Encadernada. Traduzida, publicada, revendida, assinada, constrangida, celebrada,  homicida, perdoada, merecida, abandonada. Esquecida. Humanizada. Nos livros e na doutrina, onde amor é verbo conjugado e homens ainda buscam o céu. Buscam-no pela noite, à mesa, palavra por palavra contada por caractere. Tela branca. Buscarão até jamais encontrar, a palavra que não está lá.

Quem sabe… as pedras.


E.N.

rio

.
dizem alguns que não tenho vontade

ou que, se tenho, evapora.

vou te falar da minha vontade:

é molhada.

pensa num desejo corrente;

quero confluir no teu rio.

encostar gentil no teu leito,

encontrar você pela margem

sem mudar teu rumo

sem molhar meu corpo.

quero aguar teu curso com meu leito

sereno

molhado

sedento.

quero te encontrar na curva!

tornar afluência em rio de um leito só:

meu e teu leito,

até o mar.


E. N.

corpoativo

.
a coisa é tão vendável

as coisas

a arte.

olhei à volta, tudo à venda

meu sono

teu choro

as cadeiras

nossa inspiração

nosso trabalho!

veja a força que faz

o braço do capataz

fazendo bem feito,

no tempo,

valor socialmente agregado.

penso cá,

meus pensares domados

planilha

brifar ideias

– eu me vendo!

e nem quero ver.

toda essa coisa de dinheiro

todo esse alarde-cifrão em pleno dom gratuito.

a coisa tem preço, colega.


E. N.

um ano em que as coisas eram de uma beleza indizível

.
são essas malditas imagens;

menina de vestido, uns dezesseis.

menino, jeans e camiseta, dezoito e poucos.

todo aquele verde atrás

montanha com névoa cerrada e algum sol.

juro que nunca vivi nada disso mas sei que eles vão dançar

com a música do ar

e o pia-pia das árvores, ali no topo

– e eu nem serei ansiedade! nadinha.

ela e eu a dançar – imagina só, aquele vestido de pano dela e  a rudeza dos movimentos dele,

fazendo todo o sentido do mundo,

fazendo e criando todo o sentido

mesmo quando não houver

mesmo quando chover

mesmo quando ainda não existirmos como nós e eu quiser pensar que a ilusão é a primum-causa de todas as coisas e do universo,

mesmo assim – eu quero estar errado.

eu quero estar errado!

eu quero estar cercado

de incertezas

quando o vestido chegar.


E. N.

bodas de esmero

.
escrever poesia sem inspiração é assim,

casamento de 40 anos.

amar sem querer amar

mas querer

quase não poder

e mesmo assim amar.

sem inspiração olha-se nos olhos

põe-se o anel desgastado

“lembra? você não tinha esse calo”

“talvez tivesse mas você não via”

e riem um pro outro.

imagens assim me impelem a escrever,

sem inspiração.

(suspiro)

vez ou outra choro.


E. N.

anseio em sussurros

.
– …

– …

– Percebe isso?

– Hum?

– Tá percebendo?

– O quê? Vem cá…

– O silêncio.

– Hum.

– Quando se beija a boca se cala.

– Sim. Vem…

– O beijo cala… a boca. Aliás, a boca faz tanta coisa, tem tanta função.

– Já pensei nisso.

– Sério?

– Um pouco, sim. Boca multifuncional.

– Sim! Fala, canta, come…

– Assobia.

– Haha, também, e respira quando precisa.

– Também.

– Tanta coisa sai, tantas entram, palavras, comida.

– E o beijo?

– O beijo é o meio termo. Nada entra e nada sai, apenas permanece.

– Bonito.

– Talvez seja tudo isso junto e representa o calar, já que a

– Vem cá.

– Espera. Já que a fala é a função principal da boca. Comer é função importante, mas falou em boca pensou em fala.

– Eu penso em assobio.

– Ah, mas também é um modo de fala, entende?

– E o beijo não fala?

– O beijo fala, mas nessa linguagem outra. Prescinde palavra, som. Cala a voz!

– Cala a voz.

– Antes do beijo costuma haver uma conversa bonita. Um diálogo, ainda que pequeno, ainda que sussurado.

– E o beijo é o ápice disso tudo.

– E o beijo é o ápice, a consequência disso tudo, dessa construção. Nele é falado o que não se falou.

– Nossa.

– As bocas conversavam e o beijo cessa a voz…

– Pelo toque.

– Isso. Pelo toque une a fonte das palavras… são palavras que se tocam no beijo!

– Mudas.

– Mudas. Como os que se beijam, e assim se fala.

– E se toca.

– E silencia.

– …

– …

 

(EN)

euteamo

.
puro deleite fora viver esta vida

sem ti

puro de leite! branco, vívido, sem gosto.

amei minhas desgraças como amei a vida,

como amei você.

tão distante, tão fria – te amo!

eu te amo

te amo-lo a faca no esmeril

te cravo a faca no peito dócil

meu amor!

te deito no chão carmesim, teus lindos olhos fechados

tua boca

que não me beija me chama.

teu semblante que não me quer

me ama

suplica a vida

assim, assim, tão bela! enrubesce, toda sem graça

com meus tais modos

te vejo, enfim, minha

teu coração pára quando me vê

quando me sente aí dentro

pelo ferro que te cravo, minha aurora.

tua lágrima é minha

teu chorar é todo meu, como fora teu o meu!

casamos

minha noiva de branco e vermelho,

nossa aurora drummondiana!

teu gemer, meu céu agora, nossas núpcias

te amo

te cravo

– sou teu cravo, tu és minha rosa.


E. N.

paradoxo de Russell

.
este poema não é para ser lido.

pare de lê-lo, agora.

pare.

por favor, pare.

por que não paras?

por favor, não te avances nem mais um…

não te aguentas?

és movido, fácil assim, por algo além da tua força

– curiosidade desobediência afronta?

pare de ler! pare de ler!

pare,

pare,

pare de ler agora!

este poema não é para ser lido

e te obrigo a parar de ler, neste verso.

a última palavra que lerás será esta, aqui.

não te prestas pra leitor.

não respeitas poesia,

a pureza destas palavras que não devem ser lidas

e continuas!

ousadia, profanação!

pare! pare de ler!

como podes?

monstro! és monstro e não definirei teu nome.

maculas minhas palavras que não-se-leem,

adentras a virgindade literária com tua súbito-leitura

libido leitora

regozijo mórbido pelo caractere,

és sem caráter!

desrespeitas o véu das letras.

não te ouses avançar mais!

e não paras.

pare… de escrever.

paro.

paro de escrever que a leitura cessa.

deixe-me, ao menos, a sós com minhas palavras finais?

pelo teu bem

não devem ser lidas.

nãs as leia,

só peço este derradeiro favor:

não leia as últimas palavras.

porque, lê-las, como o fazes agora,

só faz de ti meu servo

e de mim teu mestre;

senhor da tua leitura,

o teu deus.


E. N.

poexiste

.
palavras não me escapam, nem uma!

que se pareça ainda com caco de prosa que sobra espaçada no branco, qualquer fundo, de escrita – mas não é. não me escapa.

antevi-a, bela e só

escrevi-a, bela e tão somente

criou-se

com meu ‘haja luz’ flanando no ar, a fluir – a se derramar! ah, do que chamo eu.

eu sou palavras!

sorrio dizendo, mais do que sou humano, mais do que sou feliz.

eu sou palavras!

silepse mesmo: parece errado não é, parece fora não é, parece gauche. transparece gauche, claro que é!

assim sou.

penso escrito, materializa; tua leitura me cria, eu creio, e tento descriar sentido crendo no caos. mas é cadência. palavra alguma escapou, eu quis.

me fiz, no erro do início com ‘me’. ço.

e fim.


E. N.

.
eu chovo                                                                   eu chovia

tu choves                                                                  tu chovias

ele troveja                                                                ela inundava

nós                                                                               nossa

vós                                                                               voz

reles peleja                                                               reles alcançava


E. N.

tudo vai passar

.
estamos fadados ao nosso tempo

e ao nosso lugar.

a família será a nossa até o fim de nossos dias,

ou a falta dela,

ou a sua abundância

(se Deus quiser haverá).

estamos fadados ao nossos amigos,

àqueles que conseguirmos conhecer:

tolerância aos que convirem, amor aos que nos virem

e assim será,

nesta vida que nos foi (fa)dada.

seremos nós mesmos até o fim das coisas

seremos

eu

e

você

no fim das coisas.

o fim

da nossa existência

não passará do comum – e chamaremos nosso

– nosso comum extraordinário, pois nosso, e só.

é tudo tão sopro assim

tão nada assim

nesta estrada humana, em que humanos divisam

o céu.

como não olhar pro outro, pro alto?

ah, o alto…

tornamo-nos Outro. e alados.


E. N.

original

.
quero voltar a certas origens

de espírito mais quieto e janela aberta de manhã pra ver o céu

– lembra do céu?

– meu o quê?

– não seu, céu.

– não.

era sempre (quase) assim:

um minuto ou dois olhando o céu antes de me trocar,

tomar banho e fazer o café.

lembro azul e grande, coisas brancas borrifadas aqui e acolá.

tudo belo e grandioso

e esquecido

como nossas origens.

como o Éden perdido no gênesis.


E. N.

florescência

.
vejo verdade nas flores.

podem até mentir uma pra outra

de soslaio, quando o sol se põe,

mas não para mim.

.

andar por um caminho florido

é sentir olhares de cuidado e consolo

todos verdade,

todos em coro,

aos que tento responder

com alguma decência:

olhar mais atento,

marcha em ralento,

mas é só contemplação.

é só contemplação humana.

.

o que me é caro, o que me é belo,

passa pela prova dos campos,

pelo soprar dos ventos e

o levar da boa-nova pelo jardim.

.

a essência da verdade

está, quem sabe,

na essência de ser flor:

ser que é, ser que faz ser.


E. N.
[2006]

do retorno

.
eis a vida! como não?

ei-la sempre

a guiar os rios da mágoa

revelar espelhos d’água

e evaporar,

num simples gesto de amar e sonhar

(e sofrer).

simples avança.

cadinho a cadinho,

neblina vai cedendo seu lugar pra redenção:

olha o céu a ressurgir!

tanta nuvem e passa luz, meu Deus!

oh lá deus-Sol

vem nos saudar lá de cimão,

e vai manhã e tarde

a começar do alto e terminar no chão;

ah Luna! doce lua,

vem cá que a noite é fresca de luar-ilusão!

noite e dia transgressão,

olhar em frente é ver mundo a me chamar

‘é viva!

vem, que é viva, rapaz!’

eu vou, é claro! sou rapaz e vou, é claro!

sou vivo e paixão.

bota-se os pés no eixo, pois não?

e deixa-se o lar pelo céu.

ah, exclamação de vida!

é terna onde encontra

e vence.


E. N.

grilhões de favos de fel

.
não saberia precisar quando mas tornou-se poetisa.

poema

que rima com a vida que profetisa – tão bem

com seu olhar de Apis mellifera que é.

não des-é, apenas o ser fala

e o que se ouve é canto nestas minhas ruínas de espírito manco

turvo

quase aposentado da aventura de buscar

(quando era boa de ir eu ia, mas hoje nem sei mais procurar).

me doei tanto

me doeu tanto

aí vem uns ventos tais de verbo assim escritos

e assopra

e quase para de doer.

porque quando se vê

é o próprio nós, eu, que tava fizemos tudo errado.

é a primeira, não a segunda pessoa!

no sacrossanto ofício do viver em que alguns de nós verborragem

mas que outros, tais tu, purificam.


E. N.

a D. V.

cântico vendado

O problema é a intensidade. Juro que tento mas não consigo ver somente olhos. Vejo-te passar, instante seguinte está de branco – branca, como eu.  É o teu olhar. Não apenas me olha (quem dera), desolha. Quero te mostrar quem sou, o quanto sou bom, o quanto sou divertido, o quanto sou poeta. Vem, traz o olhar pra cá… isso. Olha no meu olho e escuta. Escuta como sou poeta, escuta minha palavra escrita, agora escrevo pra você. Olha pra cá, por favor. Só dessa vez que nunca chega porque está sempre correndo, sempre no outro vagão. Sempre de mão dada com outro, do outro lado do rio. Teu defeito é esse de não querer olhar, não faz sentido. Você é corajosa. Consigo saber disso só de olhar, acredita? Então não pode ser medo. Ou o medo é justamente de eu olhar e te enxergar? Não faz sentido. Olha pra cá. Assim.  Vejo nos teus olhos um passo além, eu dou esse passo por você, vou na sua direção.  Entende? Avançar na sua direção, invadir teu espaço, tem que significar. Tem que significar! Mesmo que vire o rosto e nunca mais me veja, tem que significar. “O coração fala, fala a todos sem distinção, de maneira doce e educada”. Não foi isso que eu escrevi? Você leu, tenho certeza. Se não de mim de alguém, da dor. Meu deus, a dor! Onde está essa voz em você que só eu escuto? Por que você também não ouve? Parece ouvir mas não crer, ou não entregar, logo você que eu escolhi olhar. Logo eu, que sempre escolhia não olhar.

Você me olha. Eu sei que você me olha, olhar tem peso. Vai pro meu ombro como um fardo que boi carrega, mas o boi não sabe que é fardo e carrega carrega carrega, não chora se não chegar. Não vai chegar nunca e nem sabe disso, não chora. O teu olhar é fardo e eu sei, e eu quero, mas você não me dá.  Eu quero! Eu quero o teu olhar de fardo posto sobre meu ombro, quero sentir seu peso e ter que inclinar meu corpo pra aguentar. Vou dobrar um pouco os joelhos, entende? Pender meu dorso pra frente e acomodar teu fardo em cima do meu lombo de homem que eu aguento. Talvez você não creia, mas eu aguento. Talvez você me veja lembrança, mas eu aguento. Talvez você me veja mais um igual aos outros que não aguentaram. Mas eu aguento. Ainda é medo? Eu assimilo. Infelizmente assimilo, admito que isso tudo começa a perder a graça. Era graciosa até pouco tempo, juro, mas agora eu só queria vomitar-te de mim e acabou. Não te ver branca. Vandalizar meus olhos. Você me olha e eu penso que me quer – jura que é só engano? Você me olha e não me quer, é isso? Eu peço então que não me olhe se não quiser.  Talvez seja essa a solução e vou fingir que acredito. Costumo levar a sério, o problema é a intensidade. Eu vejo demais, intenso demais, olhar intenso é pra mim demais quando é de menos, deve ser isso. Hoje é você, amanhã era ela.  É só um relance pra ser de novo ontem, tudo ontem, e não vai chegar. Nunca.


E. N.

serrote

.
vou parar de contar as minhas histórias

os meus amores

vou começar a viver as minhas histórias

os meus amores.

vou viver e amar de maneira tão inusitada

que nem vai parecer que vivo – ele não ama!

tanto define-se, pouco existe-se.

falta beijar menos

amar mais

falta querer menos

amar mais

falta pedir menos

amar mais

falta sorrir menos

amar mais

falta viver menos

amar mais

falta amar menos

viver mais

e

(diacho)

falta fazer menos poesia.


E. N.

contraparte

.
hoje é dia de arte sem açoites

quase sem restrição

(o corpo ainda é carne, há restrição).

os olhos serão luz

na treva de uma angústia a declamar.

haverá quem me ouça,

haverá quem me julgue,

haverá alguém

do outro lado do rio de verso.

e o verso

será diálogo convalescido

que alcança o que na prece se perdeu.


E. N.

spirit in the waste

.
i saw them coming in pairs.

not stealthy enough, they were there to be seen

in pairs

unawakened.

reach them in my condition seems

undoable;

what can i do besides poetry and weep?

i weep

i write

i keep

and i desire,

because it is still desirable (until when, i do not know).

i saw, they came in pairs.

to become one of them

i must find someone

or split myself

and i keep splitting.


E. N.

bossa trovadoresca

.
dos nossos segundos eternos, insensatos, surte uma fala que diz: explosão!
as cores saltam, as aves voam, nem tudo é ilusão.

e no teu olhar denso, no teu olhar fundo,
veem-se desenhar subespécies desse amor vagabundo

mas presente
(vale mais presença fria que calor ausente?)

o que quero é mágoa, o que tens é água nos olhos de sal.
do mundo é viver de lembrança e cantar a esperança: “livrai-me do mal”.


E. N.

qual lei-mar

.
vem e; vai
vem e; vai e vem
vai
das ondas
e a cada ciclo
cascalho novo
rebenta rochas
areia do fundo

quando vão
são aventura e vastidão
horizontes vencidos
– escapam, alcança-se, escapam
e mundo conquistado.
conquista-se com o ir
e o ir é
lançar-se à maré.

então vêm e são nossas
somos-nas, nós mesmo,
a retornar,
assimilar o tudo
em cada parte
do nosso nada, ou quase
– saudade
de cantos vários.

e nesse bailar de águas,
nessa redundante
fuga
a vida constrói-se
mais rica e profunda
no transpassar fronteiras
para além
do além-mar.

o subir da maré
– o aguar do curso-mar
é avançar
sabendo-se ter de
voltar
sem saber pra onde
que a praia é outra
o rumo é outro

o vento muda…
a água é
nuvem
vai; e virá.


E. N.

a R. L. [2009]

rima com ela

.
no entanto,

nunca fui de falar dessas coisas até que

enfim.

é tanto encanto que

mesmo em face do maior

espanto

me rendo ao canto e escrevo mais um verso

e outro mais

e mais um tanto

e sem pranto – que é santo!

este ofício que me acometeu,

o de escrever uns versos poucos

e brancos

a ela.


E
. N.

laços e negra vila

.
é tribal
o círculo que se forma em redor do fogo
– inzìlo, diz changana,
que acende o corpo e espanta o frio.
rebenta-se em urros
uivos
canto de guerra em tempo de paz.
o enlace das mãos
ora dadas
ora estendidas ao itílo-céu
reconhece-se por tribo,
por dança,
por deus.

indagam olhos brancos:
“que queres com meu deus, forasteiro?
por que apagas meu fogo bantu?
que nos aquece, que nos faz um?”
olhos brancos,
cenho negro.
apenas almas
a penar
apesar de todo (e autêntico) esforço.

unidas almas.
laços, mão a mão, no círculo de fogo,
na terra incontinente em treva a clamar
“ni làva à kuphuza màte!”
“kuphuza máte!”
queremos água!
água
que não possuem.

a líquida e a eterna, vieram lhes trazer.
vieram lhes ser servos,
os servos dos servos, honrar-lhes o pisar descalço!
e honram, passo ante passo
passo e palavra
palavra a palavra
que traz pfùlàà-chuva.
água
na África
tão árida…
e faz-se a colheita.

o inzílo agora queima a fio
desconexo da aldeia, assando caça.
há sentido novo no calor.
um sopro quente,
provindo de uma estrela tal como a de
belém.
desce em suave dança a remexer flores e une
o eu
o outro
e Iavé
em triuno laço de amor.


E. N.

a A. G.

belos álibis de Atlas

.
do extremo ocidente é que vem o clamor.

chama seres etéreos pra fazer companhia

na noite fria,

no dia quente.

fora este teu álibi,

teu alívio?

separar Urano e Gaia

pra que a vida perdurasse?

Perseu te fez pedra

(trouxe a Górgona de olhar fulminante)

tornara-te, pois, a primeira coluna atlante:

ombros acostados na abóboda celeste,

firmeza imortal,

arquiteto pujante.

grandioso gigante, filho de Jápeto!

titanesca é tua força,

titanesco é, também, meu fardo.

atenta cá pra baixo,

pra este humano dos meus gestos

repara no meu canto

que se eleva junto ao teu;

tu foi dar contra o Olimpo,

eu dei contra Jeová.

solta Urano

(o mundo acabe)

– somos deuses a chorar.


E. N.

a I. B. [2010]

em desejável paz

.
deito-me nas falésias

pra que o peso do meu corpo penda morro todo abaixo

e penso que

se não houvesse meu corpo não haveria pendor

nem ação da gravidade.

meu corpo quer o abismo

pende

repuxa

deseja-o apesar da queda

– quer, não a queda, mas sua sensação.

meu corpo

obituário e glória

precipita toda uma consciência de ser a um desconhecido ‘abaixo’

lá embaixo

onde corpos e vidas caem,

lá embaixo

onde sensações terminam

e descansam incapazes.

penso

que corpos densos são mais propensos à queda.


E. N.

por que choram os que dançam?

.
não dá mais pra distinguir choro de fúria!

e o bailar de corpos agora é

água na curva do rosto.

entramos aqui amadores

saímos amantes!

do palco, das luzes, das bênçãos da deusa da arte

– dá-nos a bênção, ó inspiração!

divina, profana,

consuma nosso corpo de barro,

este apenas suporte da tua arte, da tua alegria!

e pra quê distinguir deuses de demônios?

somos o que somos:

aberrações celestes, monstros de pelúcia

esbanjando graça,

ministrando paz.

meus amigos! meus irmãos.

não dá mais pra distinguir corpo de maquiagem,

nem o que somos de nossos papeis.

entramos aqui pessoas

saímos daqui menestreis.


E. N.

à mansão 2010, anjos vestidos de monstros

templo

.
o corpo se vai, esvaindo-se em cada segundo-areia – tic que passa (tac). o corpo muda cresce e pára, e muda pra velho e doente.

o tempo

que não passa, não muda, não voa, não anda, mas é e faz, e se mostra e marca. o tempo que marca o corpo, tempo numérico, tempo-lembrança, tempo que nunca existiu e não existirá – tempo fora de tempo.  tempo que paira sobre o espaço e sobre nós e percebe quão efêmero é o viver e o amar.

o tempo não vive nem ama.

 

E. N.