tristeza

A menininha com sotaque lusitano chegou chorando para a mãe.

Mataram Jesus na cruz, mamã. Mataram ele.
Tenha calma, minha filha. Isso foi há muito tempo.
Mas mamã, é muito triste.

E de fato era. Tanta força nessa história de milênios. Tanta dor. Muitos dizem que há verdade; outros, inspiração. Alguma coisa houve ali que moveu pessoas e olhares para cima. Que distância tem do céu as mãos abertas da mulher que reza com rosto no chão? Quantos decibéis no choro da mãe que mora no viaduto e não tem pão pra dar ao filho? Quão rápida é a ambulância que socorre aquele senhor? E veio um cara falar de amor. Levantar a cabeça da mulher e tirar-lhe a culpa. Pegar na mão da mãe e dizer que ele cuida dos pequenos. Visitar o senhor assegurando-lhe, ainda hoje, o paraíso. Diz-se que na cruz sobrou amor. Não das mãos dos que a ergueram, mas das do que foi erguido. Penso que no turbilhão de sinestesias por que passava naquele momento, entre passados, presentes e futuros, por um milésimo de tempo, num derradeiro fragmento mental, ocorreu a Jesus a imagem da menininha de cinco anos a chorar sua morte dois milênios depois. A menininha que concluiria sua tristeza com a mais pura compreensão:

Tudo bem… algum dia ele ia morrer bem velhinho mesmo.

E o céu sorriu para sempre.

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porção

Minha mãe conta de quando seu pai, Elias Nasser, ia com os três filhos para o bar beber SevenUp, lá por 63. Para Leilinha, Iana e Toninho era a festa. Andar com o pai, sentar com o pai, olhar para o pai. Seu Elias fazia tudo de rotina, sem deixar de sorrir quando os rebentos desatavam a contar seus feitos. “Briguei com Tó” “Brinquei com Paula” “Caí de bumbum”, todos riam. Mas na hora de sentar à mesa, ritual. Garrafa de vidro verde acompanhada por três copos. Uma garrafa pra matar sede quádrupla, que dinheiro à época era metade. Ou terço. Garçom pousava o vidro na mesa, estalando tampa fora enquanto sorria para os quatro. Seu Elias retribuía com semblante sereno, agradecendo mais do que pedia o razoável. Era homem sensível, seu Elias, sobretudo à vida que não lhe sorrira tanto. Viera humilde da Síria para o Brasil, encontrara a esposa mas também o álcool e um certo vazio. Era artista nato. Desenhava rostos e paisagens incríveis, sem ter nunca tido uma noção de traço. Era apenas dele esse talento. Dele e do mundo todo, que o perderia um ano depois de nossa história. De volta à mesa, ali está seu Elias erguendo com destreza a garrafa sobre os filhos. Era habilidoso com as mãos, mas não pudera viver de arte – sua arte intrínseca, eliástica, nasseriana: nos dias úteis, enrolava meias para revender no centro da cidade. Seu tempo, sua vida, sua força, a vestir os pés de boa gente com algodão de boa linha. Quinhão de mais-valia necessária à sobrevivência, que no caso lhe custara a arte e rendera uns tostões para matar com SevenUp a sede da criançada. Era esse o momento sagrado. Três copos alinhados. A garrafa levemente a deitar no ar, entornando gargalo à boca do primeiro copo. Líquido espumeava alegre no fundo do vidro, crescendo com chiado e bolhas. Subia um dedo e parava. Próximo copo. Subia um dedo e parava. Próximo copo. Mesmo ritual. Recomeço, que a meta era igualar. Níveis sempre equiparados, seu Elias fazia questão. Vidrados, os olhos dos rebentos auditavam cada movimento. Participavam fervorosamente da missa do pai. Ele, o capelão, a prover de cálice a igreja. Os pequenos, seus fiéis, balanricando os pés rente ao chão inalcançável. A garrafa reluzia verde; vinho incolor à boca dos recipientes, dedinho em dedinho até secar gargalo. A ceia estava servida. Bebamos em memória dele. A porção de cada um, sorvida num gole só. E limpar os lábios com a manga da camisa.

Pequena porção de vida foi que teve meu avô, seu (meu) Elias. Os dias de um e outro sempre contados à parte; não os meus. Nossos dias têm o mesmo nome. Carrego-o comigo nas letras e no caminho. Carrego-o na transgressão. Vontade de viver a arte por nós dois, vencer o mundo, vingar a perda. Fosse a vida mais generosa, teria-o agora por cima dos ombos a me ler. “Ame ler”, sussurraria. E eu explicaria que escrevo e sou o maior leitor – de mim mesmo. Eu lhe escreveria sempre. E ele me desenharia. O livro infantil que faríamos juntos até hoje me encanta. E assombra. À sua sombra eu canto. Hoje escrevo não apenas pelos 50 anos de sua morte. Mas para que, no dia do reencontro, criações possam se tocar.

Com amor,

EN.

.
– Eu queria uma verdade pra mentir por aí.
– Haha!
– Que foi?
– Que frase maluca.
– É profunda.
– É maluca.
– É profunda e poética.
– É maluca.
– Tá.
– Brincadeira. Eu gostei.
– Tu já reparou?
– O quê?
– Que quando eu tento aprofundar tu foge? Tu brinca?
– Você não gosta?
– Na real, não. Acho que, no fim das contas, tu não me acompanha. Pô, “que frase maluca”? É início de um poema que me ocorreu ontem à noite, tô louco pra escrever. Achei lindo, mas pra você é maluco.
– Nossa. Eu realmente tava brinc…
– É sério. Não quero ser grosso mas tô sendo sincero. Se fosse um filme tu agora ia me olhar, bonitinha, tristinha, eu ia reconsiderar, perceber que o amor (pigarro), nosso amor é maior que tudo e tal. E te abraçar, beijar, ignorar qualquer coisa contrária ao “nós”. Mas não vou, isso é uma merda. Odeio esses filmes. Odeio essa mentira.
– Você já reparou?
– O quê?
– Não há verbo pra verdade.
– Como assim?
– A gente afirma. Confirma. Averba. Insiste. Profere, declara, dá fé. A gente mente. Mas a gente não verdadeia.
– …
– Verdades verbalizam por si mesmas. Cada própria verdade. Cada vida que se vive, cada fala que se fala – cada auto-palavra – é verdade a verborragir. Prefixo idêntico não é coincidência. Ver-dade. Ver-náculo. Ver-bo.
– “E o verbo se fez carne”
– E sua palavra é a verdade.
– Desculpa eu ser tão complexado?
– Desculpo.
– De verdade?
– De verdade. Agora vá mentir por aí.

(EN)

Maria,

sinto lhe informar que o amor acabou. Andava murcho e calvo, cuidamos mal, esmoreceu. Como é que tinha dito padre Astolfo? Cuidas-te-vos do teu jardim e assim farás-vos-á flores prosperarem. Não era isso? Alguma coisa assim com mais mesóclises. Não cuidamos do jardim, Maria. Era tua e minha carga, não fizemos.

Não gosto da imagem do jardim. Gosto da imagem do gordinho. Você lembra? O amor é um menino gordinho. Tem que alimentar o menino pra se manter as bochechas, entuchar-lhe calorias com Sazón. Faltou Sazón, Maria. Faltou temperar o bife pro gordinho comer feliz e chacoalhar a barrigueta. Nosso amor não tem barriga. É esbelto, tem zero açúcar, IMC baixíssimo. Está sempre de dieta. Falo que te amo tal como compro pão. Virou rotina, Maria, da que se faz por obrigação. Amor não é pra ser assim – quando é, escreve-se esta carta.

Eu não te amo. Não quero mais te amar. Não gosto de gente mimada, amor é um gordinho mimado que quer tudo pra ele. E eu? E nós, Maria? Está acabando com “nós”. Não quero te perder, não vou te perder, muito menos pra ele. Não juramos ficar juntos até que a morte nos separasse? Só a morte, Maria. Te quero ao meu lado pelo resto da vida, só te peço isso: vamos desamar. 

Com amor (raspei a panela do que sobrou),

Ermínio.

.

E. N.

anseio em sussurros

.
– …

– …

– Percebe isso?

– Hum?

– Tá percebendo?

– O quê? Vem cá…

– O silêncio.

– Hum.

– Quando se beija a boca se cala.

– Sim. Vem…

– O beijo cala… a boca. Aliás, a boca faz tanta coisa, tem tanta função.

– Já pensei nisso.

– Sério?

– Um pouco, sim. Boca multifuncional.

– Sim! Fala, canta, come…

– Assobia.

– Haha, também, e respira quando precisa.

– Também.

– Tanta coisa sai, tantas entram, palavras, comida.

– E o beijo?

– O beijo é o meio termo. Nada entra e nada sai, apenas permanece.

– Bonito.

– Talvez seja tudo isso junto e representa o calar, já que a

– Vem cá.

– Espera. Já que a fala é a função principal da boca. Comer é função importante, mas falou em boca pensou em fala.

– Eu penso em assobio.

– Ah, mas também é um modo de fala, entende?

– E o beijo não fala?

– O beijo fala, mas nessa linguagem outra. Prescinde palavra, som. Cala a voz!

– Cala a voz.

– Antes do beijo costuma haver uma conversa bonita. Um diálogo, ainda que pequeno, ainda que sussurado.

– E o beijo é o ápice disso tudo.

– E o beijo é o ápice, a consequência disso tudo, dessa construção. Nele é falado o que não se falou.

– Nossa.

– As bocas conversavam e o beijo cessa a voz…

– Pelo toque.

– Isso. Pelo toque une a fonte das palavras… são palavras que se tocam no beijo!

– Mudas.

– Mudas. Como os que se beijam, e assim se fala.

– E se toca.

– E silencia.

– …

– …

 

(EN)

cântico vendado

O problema é a intensidade. Juro que tento mas não consigo ver somente olhos. Vejo-te passar, instante seguinte está de branco – branca, como eu.  É o teu olhar. Não apenas me olha (quem dera), desolha. Quero te mostrar quem sou, o quanto sou bom, o quanto sou divertido, o quanto sou poeta. Vem, traz o olhar pra cá… isso. Olha no meu olho e escuta. Escuta como sou poeta, escuta minha palavra escrita, agora escrevo pra você. Olha pra cá, por favor. Só dessa vez que nunca chega porque está sempre correndo, sempre no outro vagão. Sempre de mão dada com outro, do outro lado do rio. Teu defeito é esse de não querer olhar, não faz sentido. Você é corajosa. Consigo saber disso só de olhar, acredita? Então não pode ser medo. Ou o medo é justamente de eu olhar e te enxergar? Não faz sentido. Olha pra cá. Assim.  Vejo nos teus olhos um passo além, eu dou esse passo por você, vou na sua direção.  Entende? Avançar na sua direção, invadir teu espaço, tem que significar. Tem que significar! Mesmo que vire o rosto e nunca mais me veja, tem que significar. “O coração fala, fala a todos sem distinção, de maneira doce e educada”. Não foi isso que eu escrevi? Você leu, tenho certeza. Se não de mim de alguém, da dor. Meu deus, a dor! Onde está essa voz em você que só eu escuto? Por que você também não ouve? Parece ouvir mas não crer, ou não entregar, logo você que eu escolhi olhar. Logo eu, que sempre escolhia não olhar.

Você me olha. Eu sei que você me olha, olhar tem peso. Vai pro meu ombro como um fardo que boi carrega, mas o boi não sabe que é fardo e carrega carrega carrega, não chora se não chegar. Não vai chegar nunca e nem sabe disso, não chora. O teu olhar é fardo e eu sei, e eu quero, mas você não me dá.  Eu quero! Eu quero o teu olhar de fardo posto sobre meu ombro, quero sentir seu peso e ter que inclinar meu corpo pra aguentar. Vou dobrar um pouco os joelhos, entende? Pender meu dorso pra frente e acomodar teu fardo em cima do meu lombo de homem que eu aguento. Talvez você não creia, mas eu aguento. Talvez você me veja lembrança, mas eu aguento. Talvez você me veja mais um igual aos outros que não aguentaram. Mas eu aguento. Ainda é medo? Eu assimilo. Infelizmente assimilo, admito que isso tudo começa a perder a graça. Era graciosa até pouco tempo, juro, mas agora eu só queria vomitar-te de mim e acabou. Não te ver branca. Vandalizar meus olhos. Você me olha e eu penso que me quer – jura que é só engano? Você me olha e não me quer, é isso? Eu peço então que não me olhe se não quiser.  Talvez seja essa a solução e vou fingir que acredito. Costumo levar a sério, o problema é a intensidade. Eu vejo demais, intenso demais, olhar intenso é pra mim demais quando é de menos, deve ser isso. Hoje é você, amanhã era ela.  É só um relance pra ser de novo ontem, tudo ontem, e não vai chegar. Nunca.


E. N.

Safo ranga Anúbis

Desce enfim ao submundo. Expirou longe da Grécia, do conhecido verdejante. Flamejante – foi antes o que buscou durante a vida na superfície. Incendiar vilas com palavras, carbonizar costumes, a centelha da dúvida! Correu em chamas pelo mundo. Trouxe o fogo como Prometeu, o mestre e guia, mas era o fogo profano dos deuses sangrantes. À falta de recato uma só direção: queda. A poetisa de Lesbos aguarda, pois, sua vez na fila dos desalmados quando nota hieróglifos na parede. Esperava Hades, mas agora sabe que não é este quem virá.

– O mito, a sombra, o túnel eu vi. Não subi ao Olimpo e ao Hades não foi que eu desci. A epígrafe, enfim, se apresenta viva: “Clamarei de um lugar que não conhece meus feitos; morrerei em um lugar que não conhece meu nome”.

Surge Anúbis, compostura, cajado e cabeça de chacal. Os olhos são luz.

– Quem vem lá e d’onde.

– Quem sou? Fui muitas e tantos, e contos e canções. Com a vida sonhei, para a morte sorri, sou Safo de Lesbos – cantei, amei, vivi.

– A poetisa desejada por Hermes do Olimpo? A boca flamejante das ilhas do Egeu? Vens de subverter o mundo e dar com a língua nos dentes.

– Venho de abraçar o mundo e dar fogo aos descrentes.

– Queres insultar o sacro templo de Rá? Onde está Zeus que não doma seus filhos?

– O olhar de nossos deuses não ultrapassa corpos leves.

– Corpos sem alma?

– Corpos de baile. Dança, deus da morte, dança que a leveza se encarrega do voar. Bailarino do Nilo, baila! O rio corrente em suas veias muito em breve secará.

– O que dizes é loucura.

– Digo o necessário, o que diz o breviário do meu deus ausente.

– Poetisa…

– Chame-me dançarina.

– Bela dançarina dos bons ventos. Como poderia eu me libertar do fardo divino, o ofício de guia dos mortos?

– Salte da morte para vida. Estenda os braços e enlace o que puder, no tempo que lhe sobrevier…

Enquanto fala, os braços de Safo se alongam e sua boca alarga até se abrir como portal frente a Anúbis. A divindade egípcia enxerga uma alma simplesmente livre: morte e vida não lhe acometem. Ele quer da mesma água. Seus olhos agora são brilho. Cajado lançado no chão, com um passo adentra a bocarra… que num átimo o devora – beiços lambidos, os braços se entrelaçam e o que se forma é casulo – ou sarcófago. Sem betume, sem bálsamo, mas selado. A viagem será longa.

E. N.

Aba, por mim

Indefinível, insondável, mas tão próximo que o ouço com o bater do meu coração. Bate e me chama, é convite a dançar pelas margens dos rios e baixas nuvens, ao que respondo “posso?”… Ah, humano e pequenino, responde com pergunta a esse afável conclame! Recebo em troca largo sorriso de “venha cá, amado meu! Dançaremos até que eu levante o sol, e se estiver disposto dançará conosco também”. A notícia corre pelo universo e logo a face tranquila do oceano resplandece lindo baile: coro de estrelas, aurora boreal e o bailar suntuoso dos astros. Em plena noite o dia surge, desperto pelo soprar do vento nebular, o rodopio das vestes das galáxias. O movimento é tão intenso e sincronizado que… ouço música. Recostado num tronco de pinheiro, à margem de um grande rio, está eu de mãos dadas com meu Senhor. Ele aponta e nomeia cada constelação cantante e finge que não vê quando adormeço em seu colo. Continua a falar manso e baixo, mexe em meu cabelo e quando põe o universo a dormir de novo, consigo, de olhos fechados, ouvir o correr do rio e uma linda melodia que ele canta sem abrir os lábios. Sinto a vibração sonora e sua respiração, compassada com a minha. Imagens começam a se formar em minha mente e estou sonhando… sonho que acordo em minha cama, num mundo melancolicamente real. Mas o céu está diferente. O meu ser é amado por um grande ser feito de amor. Um grande e lindo ser se preocupa com meu ser – de pó.

E. N.

Conto Edeniano

Numa dessas viagens metafísico-poéticas, encontrei-me no Jardim do Éden, frente à árvore da vida. Tudo lá havia mudado. A outra árvore central havia secado – aquela que originou o pecado, a cegueira, a surdez; insensibilidade ao toque humano, aos aromas da alma; todo tipo de mau-gosto. Sobrara apenas essa da vida, que não mais tinha seu elixir da vida infinda. Sua condição era outra: secassem as folhas, aquele que observasse a última delas se desprender e cair receberia o dom de todo o conhecimento. Não aquele científico ou técnico – disso tudo já se sabe, e o que não se sabe não se quer saber. A árvore da vida de meu jardim possuía a mística da revelação. A própria vida se desnudaria a mim, sem reservas, sem pudor. Os mistérios não mais existiriam, os malgrados, as sinuosas passagens – todos endireitados e confesssos, e tudo na visão de uma folha que cai. Se a feita parecia fantástica, minha curiosidade se mostrou tão maior que fiquei lá, em ferverosa vigília, atento à folha mambembe e divina – a última da árvore quase seca. Divaguei então sobre as novas que me seriam dadas. Anunciá-las-ia? Por certo. Um profeta, é o que me tornaria. Um profeta dos mistérios da vida. Vinde todos, ó raças e nações! Vinde que anunciá-los-ei as novas da vida que se revela! Vinde também sábios e deuses, e hordas e civilizações, ajuntes sistêmicos, totêmicos, endêmicos; vinde e trazei a taça! Que eu a encherei de graça e cura e saber! Vinde que a vida não mais será vida, mas redoma de paz, previsto e prazer!
Súbito pára meu pensamento que se volta atento ao pedúnculo da pequena folha: desprende-se do tronco. Fora, pois, eu mesmo o escolhido dessa tão bendita sina! O trajeto tronco ao chão parecera anos-luz. Mil-pensava: é atentar ao que se passa nesse evento tão prosaico? É tocar o chão a folha que recebo pronto o dom? Pensava eu, voava eu e ansiava enquanto a folha rumo à terra então caía. Rodopios, vento e silfo, gentilmente toca o chão. Toca… o chão. Nada a alumiar a mente. Devia eu tocar a folha? Mas, não. Com ela nas mãos, centelha alguma de resposta veio roubar lugar aos velhos sonhos e angústias. Que era, pois, tudo que se disse? Que troça é essa que se faz neste solo tão sagrado? Derradeira, a folha cai. Por que nada me foi dado?
O vento era folhas e sussuro. Silhuetado, o céu anunciava o crepúsculo por detrás da árvore, que cedia e voltava, cedendo e voltando os galhos, todo o tronco. Olhar pormenor, percebi lá no topo, na altura apical, no mais alto da copa, preso ao último galho, lindo ramo verdejante. Dezenas de folhas balançavam ao vento, tremulejavam, sacudiam, sinal algum de cessão ou desgaste. Era um ramo tão tenro e novilho que diria-se ter brotado há pouco. Mas detinha uma firmeza tão tenra e enraizada – uma beleza, assim, de tempos – que o remetia às fundações do próprio jardim. Um algo impossível de ser mensurado por nossa mera temporalidade, mortal e terrena, em que tudo ou é, ou foi ou será. Fosse, quem sabe, a última eternidade que sobrara do paraíso. Não contive a surpresa e a emoção. O encanto sobreveio à frustração. Numa terra fantasticamente divina, de feitas divinamente fantásticas, como não esperar pelo mais fantástico do divino ou vice-versa? Foi o que a vida me pareceu após esse encontro no jardim. Nenhum homem a conheceria e vi eu que isso era bom. Enxugo os olhos, recolho a ganância, o orgulho, discretamente –  não quero ser notado. Um reles humano! Um reles humano e poeta. Revoada de pássaros, tudo faz sentido.
Retorno olhando para o céu.
E. N.

Passeio com Rubem Alves

.
Braços dados, passo junto, passo finito.

A vida ali, explicada em silêncio.
O semblante, as não-palavras, o cansaço,
tudo poético. É um ser humano poético.
É humano, meu Deus!

Braços dados, passo acelera, passo e finitude.
O viver ainda vivo em seus olhos,
e percebo que as coisas e o futuro
são apenas coisas e futuro,
nada mais ou menos sublime.

E nada mais que um passeio,
que humano e humano,
que pai e filho, que vô e neto,
que estrela e explosão.

O silêncio que tudo dizia
se aquieta, e eu ouço sua voz
dizer qualquer bobeira
que não filosofia ou religião.

Separamos os braços, ele sorri,
e eu retribuo em outra dimensão.
Já não estou mais aqui;
o passeio termina em um lugar chamado não-mundo.

E. N.

ao R. A.

Mais um João

João era um menino pobre, que nascera pobre, debaixo de uma ponte.

João quase nunca tinha fome. Não gostava de comer.
Ainda bem.
Se João tivesse fome, não haveria o que comer.

João não gostava de estudar. Nunca fora a uma escola.
Ainda bem.
Se João gostasse de estudar, não ia ter como ir à escola.
Tinha que ajudar sua mãe e pedir dinheiro no farol.

João não tinha sonhos. Nunca gostou de fazer planos para o futuro.
Ainda bem.
Se João tivesse sonhos, seria pior a frustração de nunca vê-los realizados.

E descobriria que não tinha futuro.

João parecia também não gostar de viver. Morreu logo. De fome, sem estudo e pobre, debaixo da ponte onde nascera.
Ainda bem.
Ah, se João gostasse de viver…

E. N.

O Conto do Sol

Certa vez acordei querendo ver o sol. Olhei pelas frestas da janela, mas não vi nenhuma claridade. Saí da cama e abri a janela: estava tudo escuro. A janela talvez não fosse a melhor maneira de ver o sol, então resolvi sair de casa… Tudo continuava escuro.

Eu queria o sol. Mas ele não estava lá.

Então resolvi criar um sol. Peguei todas as lanternas que encontrei em casa. Não brilhavam como o sol. Então saí pela vizinhança e peguei todas as lanternas que encontrava pelas casas. Ainda não brilhavam como o sol. Então fui pegando todas as lanternas que podia, além da vizinhança, além da cidade. Quando percebi, tinha pegado todas as lanternas do mundo.

E agora sim brilhavam como o sol. Eu não estava totalmente satisfeito com aquele sol, mas pelo menos era o meu sol, que eu tinha criado. E brilhava como o próprio sol.

Mas de repente, tudo ficou escuro novamente. As pilhas haviam acabado. Desisti. Percebi que, para realmente se ver o sol, é preciso esperar pela alvorada.

E. N.