tristeza

A menininha com sotaque lusitano chegou chorando para a mãe.

Mataram Jesus na cruz, mamã. Mataram ele.
Tenha calma, minha filha. Isso foi há muito tempo.
Mas mamã, é muito triste.

E de fato era. Tanta força nessa história de milênios. Tanta dor. Muitos dizem que há verdade; outros, inspiração. Alguma coisa houve ali que moveu pessoas e olhares para cima. Que distância tem do céu as mãos abertas da mulher que reza com rosto no chão? Quantos decibéis no choro da mãe que mora no viaduto e não tem pão pra dar ao filho? Quão rápida é a ambulância que socorre aquele senhor? E veio um cara falar de amor. Levantar a cabeça da mulher e tirar-lhe a culpa. Pegar na mão da mãe e dizer que ele cuida dos pequenos. Visitar o senhor assegurando-lhe, ainda hoje, o paraíso. Diz-se que na cruz sobrou amor. Não das mãos dos que a ergueram, mas das do que foi erguido. Penso que no turbilhão de sinestesias por que passava naquele momento, entre passados, presentes e futuros, por um milésimo de tempo, num derradeiro fragmento mental, ocorreu a Jesus a imagem da menininha de cinco anos a chorar sua morte dois milênios depois. A menininha que concluiria sua tristeza com a mais pura compreensão:

Tudo bem… algum dia ele ia morrer bem velhinho mesmo.

E o céu sorriu para sempre.

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catártico

.
nada fará sentido se não for pela loucura.

olhe ao redor.

percebe tudo confluindo para o norte?

e você, com medo da morte,

a seguir o fluxo antes que te gritem “volte à fila!”

e você se mantém

se obedece

se contém

se entristece

mas limpa a lágrima pra não levar advertência

– tudo, tudo, tudo é bom em sã consciência!

e você  crê nessa porca verdade

sem pensar na consequência

– chega de rimar!

gente que mente pra vender mais,

parecer mais

agradar mais

perecer não vai?

vai também – tudo conflui para o norte

como o fim deste texto que se aproxima…

ah, o texto.

o escrever.

limitado pelas palavras, pela sanidade,

quisera eu ser louco e trocar tudo por

vã liberdade.

.

e acontecerá.

(EN)

li que doi

.
é

aguar

teu líquido

líquido olhar, ah!

como é líquido teu passar

teu permanecer liquida meu agir

mas, mais que tudo, é líquido te alcançar.

teu barco-navio lá distante, indo avante, pelo mar

meu barco-jangada à deriva, chora as ondas, em céu-luar

e teu líquido, quem me dera, algum dia, qualquer dia, a brindar

com todo meu líquido, de sobra, que dia-a-dia eu tratei de preservar.

tudo líquido, tudo ínfimo, tudo desmancha, tudo evapora, tudo me molha

quando eu

só lido

com você

a sublimar.

.

(EN)

amem

.
não se medem coisas.

medimos nós mesmos

frente às coisas.

no mundo, é mensurável o que nos toca.

no mundo, tem textura o que se toca.

eu nunca medi

paz

viagem à disney

furacão.

eu já medi

saudade

amor de mãe

tribulação.

e o motivo, afinal, de toda poesia existir

é a busca

da textura

do amor.

(mil gerações passarão

tempo e bonança sobrevirão

toda a constelação de morte

toda a ressureição de vida

– tudo

e

– todos

milimetricamente medidos,

cada um no seu lugar.

e no alto de uma colina

debaixo de uma árvore

com cenho angustiado,

coração-amargura:

um poeta

ainda buscará a textura)

.

(EN)

A minha dança será teu pranto

.
Vejo o vento. Não sinto o vento, vejo.

Não sinto e vejo, apenas vejo – é aleatório e branco.

Sinto a lua. Não vejo a lua, sinto.

Não vejo e sinto, apenas sinto – é certeira e branca.

A história mais bonita da história

É o corpo a bailar pelado

Em noite de lua cheia.

Tem a fogueira e o mar

Tem areia e luar

Não tem fumaça, nem fumo, nem torpor

– Só mente e corpo, a rodar e a rodar e a rodar.

A dança chamou-se luz

Eu me chamei lucidez.

O movimento flui com o vento, é visível, como o vento, como o mar.

Ninguém o vê.

Ninguém o verá.

E na senda de cascalho e pedra, na altura do horizonte escuro

Onde o céu encontra a lua que encontra o vento que encontra o mar,

Todo o que é errante

Todo o que é incerto

Todo o que é perdido

Se encontrará.

.

(EN)

.
exatamente assim que se começa,

sem exatidão.

nascer não é morrer ao contrário:

morrer é nascer à milésima potência.

mambembe, o fim se aproxima num cachorro manso à cata de migalhas.

com a roupagem de um deus troglodita

que tudo começa

que tudo termina.

.

(EN)

Como escrever um poema

.
Não precisa de muito. Junte umas palavras, começo, assim, e deixe no início para chamar atenção. Advérbios caem bem.

“Exatamente assim que se começa”

Chamou atenção, precisa prendê-la. Brinque com um paradoxo.

“Sem exatidão”

Atenção retida, é preciso jogá-la pra outro canto do esperado. Surpreenda com assunto aparentemente desconexo do tema.

“Nascer não é morrer ao contrário”

Enunciado carece de explicação. Poeta não explica, expele – coloque o leitor à beira do abismo e unja-o com raro aforismo:

“Morrer é nascer à milésima potência”

Não o empurre ainda. Terminar quando tem que terminar é prosa. Poesia é contrário. Presente vem do inesperado – dispender beleza inesperada, isto é presentear.

“Mambembe, o fim se aproxima num cachorro manso à cata de migalhas”

E então você o empurra.  Do começo ao fim , o que se aguarda é queda. Vai durar três versos:

“Com a roupagem de um deus troglodita”

Fé surpreende o leitor desavisado, que agora mora em  seus versos. Permita-o morrer em paz.

“que tudo começa”

Permita-o morrer em paz!

“que tudo termina”.

.

(EN)

……………Tenho um segredo que se chama silêncio. A minha voz, a minha poesia oculta-o como um baú. Sou palavras, demonstro. Sou expressão e cadência, mas a essência é nada senão sem-voz.

Enterrada sob os versos de terra
sob os solos do verbo
sob o barro da fala
sob o intervalo das frases de areia.
De grão em grito, de tom em tons de granito, permaneço
secretamente
em silêncio.

……………E haverá o dia de se achegarem ao chão, cavarem a terra, pousarem as mãos nuas no segredo assim guardado. O dia haverá em que vão-me perguntar. E a beleza de toda a prosa será esta: não sendo palavra, calará.
.
(EN)

.
– Eu queria uma verdade pra mentir por aí.
– Haha!
– Que foi?
– Que frase maluca.
– É profunda.
– É maluca.
– É profunda e poética.
– É maluca.
– Tá.
– Brincadeira. Eu gostei.
– Tu já reparou?
– O quê?
– Que quando eu tento aprofundar tu foge? Tu brinca?
– Você não gosta?
– Na real, não. Acho que, no fim das contas, tu não me acompanha. Pô, “que frase maluca”? É início de um poema que me ocorreu ontem à noite, tô louco pra escrever. Achei lindo, mas pra você é maluco.
– Nossa. Eu realmente tava brinc…
– É sério. Não quero ser grosso mas tô sendo sincero. Se fosse um filme tu agora ia me olhar, bonitinha, tristinha, eu ia reconsiderar, perceber que o amor (pigarro), nosso amor é maior que tudo e tal. E te abraçar, beijar, ignorar qualquer coisa contrária ao “nós”. Mas não vou, isso é uma merda. Odeio esses filmes. Odeio essa mentira.
– Você já reparou?
– O quê?
– Não há verbo pra verdade.
– Como assim?
– A gente afirma. Confirma. Averba. Insiste. Profere, declara, dá fé. A gente mente. Mas a gente não verdadeia.
– …
– Verdades verbalizam por si mesmas. Cada própria verdade. Cada vida que se vive, cada fala que se fala – cada auto-palavra – é verdade a verborragir. Prefixo idêntico não é coincidência. Ver-dade. Ver-náculo. Ver-bo.
– “E o verbo se fez carne”
– E sua palavra é a verdade.
– Desculpa eu ser tão complexado?
– Desculpo.
– De verdade?
– De verdade. Agora vá mentir por aí.

(EN)

Jamais vou tirar minha vida: ela já fez morada em mim (pelo menos em duas ocasiões; era pequeno, ajoelhei ao pé da cama, as mãos estavam juntas como um livro fechado. Na outra sentado na escada, grama em volta, tinha um livro no colo. Eram 15 de janeiro de um ano bom). Jamais vou tirá-la, mas não nego respeito aos que conseguem. Fácil generalizar na covardia. Impossível conceber angústia infinita. Você já concebeu? Angústia. Infinita. Eu sei que não. Tua vida é rasa, tua mente pequena. Não vai perscrutar o corpo auto-adormecido, jamais. Nem merece, vá embora. Vira a cara pro outro lado, vá ver televisão, passear com teu cachorro na rua.

A angústia infinita existe. É que a vida já fez morada em mim.

.

E.N.

Maria,

sinto lhe informar que o amor acabou. Andava murcho e calvo, cuidamos mal, esmoreceu. Como é que tinha dito padre Astolfo? Cuidas-te-vos do teu jardim e assim farás-vos-á flores prosperarem. Não era isso? Alguma coisa assim com mais mesóclises. Não cuidamos do jardim, Maria. Era tua e minha carga, não fizemos.

Não gosto da imagem do jardim. Gosto da imagem do gordinho. Você lembra? O amor é um menino gordinho. Tem que alimentar o menino pra se manter as bochechas, entuchar-lhe calorias com Sazón. Faltou Sazón, Maria. Faltou temperar o bife pro gordinho comer feliz e chacoalhar a barrigueta. Nosso amor não tem barriga. É esbelto, tem zero açúcar, IMC baixíssimo. Está sempre de dieta. Falo que te amo tal como compro pão. Virou rotina, Maria, da que se faz por obrigação. Amor não é pra ser assim – quando é, escreve-se esta carta.

Eu não te amo. Não quero mais te amar. Não gosto de gente mimada, amor é um gordinho mimado que quer tudo pra ele. E eu? E nós, Maria? Está acabando com “nós”. Não quero te perder, não vou te perder, muito menos pra ele. Não juramos ficar juntos até que a morte nos separasse? Só a morte, Maria. Te quero ao meu lado pelo resto da vida, só te peço isso: vamos desamar. 

Com amor (raspei a panela do que sobrou),

Ermínio.

.

E. N.

madeixa

.
deixei meu corpo ser a ausência que um dia sonhei.

deixei os olhos cerrados para não ver, só sentir.

deixei a alforria da alma me tomar de assalto e gorjear,

deixei me deixar.

deixei me deixarem!

deixei-me deixá-la sem sequer tê-la tido,

uma noite, só.

– foi tudo de um vazio inacreditável.

.

E. N.

.
diz-se da vida: extraordinária! tão grande!

– calma, pequeno.

deixe a vida caber na humanidade.

fraqueje os senões

afrouxe os poréns

a vida, tão grande assim, passa.

passa também sua vontade de abraçá-la inteira com dois braços abertos dane-se impossibilidade física financeira moral sou jovem vou fazer vou vencer vou viver

vendaval leva tudo!

e mais leve, tudo vai ficando na vida.

– lance é encontrá-la grande, pequeno.

e abraçá-la enquanto houver densidade.

.

E. N.

ausente

.
sabe bem descrever a sede;

quero, sim, a presença daqueles que sentem.

sinto muito, sinto tanto,

subo na cadeira pra sair na foto e sorrir – sem te machucar.

sem ofensas ou gestos bruscos

apenas sofre e sorri, sentindo. sem ter tido.

sugere-se uma noite sem sereno:

salva e sã, mia

(como gato sem sono, como lobo à lua)

luar percorrido assim

no ar socorrido, ai de mim!

em sussurros

a ciência da nossa ausência

cede.

.

E. N.

cantares da pretensa alvorada

.
lá me vem Vinícius cantar no ouvido,

calaboca!

não se sabe mais do amor porque se casa.

não se sabe menos porque se não namora.

Eros, meu caro

não deixemos cair o amor nas mãos do casal-minuto

casal-mesclado

casal-de-luto

casal-melado

nem nas da farsa hiperbólica, choros e promessas

da tal paixão convincente

ilusória.

dá-nos antes i-luz-ão!

Eros, tua arte simplesca é nunca simplória.

navegar sentido àlguém requer mais que respirar – e nos mentem.

dizem que é fácil, tranquilo

– vá-se foder, Vinícius!

cante no meu ouvido o desencontro.

cante! cante-já a renúncia

mise en scène burra da sociedade, medíocre, pareada.

que é das pessoas ímpares?

que é das completas?

chega de gente-metade; ajuda-me a achar completude!

o perdão de cada dia dá-me hoje

dá-me a mão, a busca do pretenso sol envolto de dúvida, se quiser;

não peço respostas.

ilumine meu coração sem dor, deus-amor.

ilumine meu corpo indecente

e aqueça a alma

indiferente.

põe-me no teu curral de sonhos, cavalga comigo naquele sol.

cuidarei do teu aprisco.

cuidarei dos teus ímpares desígnios,

melindre algum.

sem choro nem paixão. compaixão é pra nascer, sem paixão se vive.

seremos razão, meu Eros. escolha e razão, e seremos um.

indivíduo eu

de mãos dadas com o fim.

.

E. N.

milissegundo

.
“Cada novo segundo é tempo de recomeço”

ouvi da Liliana,

não da sua voz mas do seu perdão.

Quando estou mais perto do céu

– do espírito que se move na face das águas e no meu peito –

recomeço a cada segundo

a cada primeiro

velho erro

e último

novo perdão.

Repetem-se as merdas,

transbordam-se as graças

sem ao menos perguntar o porquê

– ou quando é que tudo vai parar de vez.

Não sei, meu Deus! Obrigado por nunca perguntar, meu Deus.

Pouco tempo e muita graça,

segundo-após-segundo:

Teu segundo-começo que me deste.

.

E. N.

charme sem destinatário

.
sempre preferi andar sozinho

nunca cansei de mim mesmo

da minha companhia.

falo com você enquanto falo comigo,

medindo palavras

medindo você.

pode ser sina ingrata essa de eu querer me bastar,

pode ser psicossomática

ou apenas capricho que me haverão um dia de desonerar.

enquanto não vem eu só meço você

(não pode ser alta)

rejeito você

desdenho você

prevejo você

anseio você

racionalizo você

dentro do meu todo eu, bastado.

sou todo charme sem destinatário

e isso me encanta.

–  ainda encanta, Elias?

.

E. N.

a virada (ou letra para um samba marrento)

.
e o futuro onde está?

tá casaaado

a procura acabou?

bem no siiim

e o não tão sonoro?

à procuuura

de uma moça prendada?

de um sim

(jogo pra ganhar, torço pra perder de virada

é mal gosto na boca, sinal de que fui pra noitada!)

minhas malas, senhor?

já partiiiram

e os postais pra rever?

tão no chão

essa mágoa porquê?

esforçou-te:

em tirar do impossível o seu pão

– e bora lá!

(jogo pra ganhar, torço pra perder de virada

se bater as seis e eu não chegar – chama o guarda!)

pra quêêê chorar?

pra quêêê sofrer?

só me explica, senhor, onde foi que deixei de quereeer?

por ooonde vai?

de ooonde vem?

vou seguir teu caminho até [tum] chegar o meu treeem

– e vou partir!

(jogo pra ganhar, perco pra torcer de virada

o meu dia chegou, tá na hora: partiu tudo-ou-naaada!) 3x

.

E. N.

cem expectativas

.
trivialidade

esse falar,

só se olhar nos olhos é verdade.

trivialidade esse ouvir

– baixar guarda, sim, é vontade.

não consegui te falar aquele dia

quando ainda era jovem e podia,

como faz pra esquecer?

vive-se assim na amargura sem saber por onde

pela senda que ninguém sabe se não se acende a luz

– ainda que se ascenda, cegueira.

ah!

trivial esse ver

tentar ver com palavras

– eu tento, sem expectativas.
.

e minto assim pra dormir em paz.


E. N.

a S. P.

nos tempos do cólera

escreva escreva escreva! escreva, poeta de Deus, escreva hômi!

– diz a massa ensandecida

queremos  tua palavra, tua escrita, ó poeta!

a mensagem divina pelas letras no papel, leitura de fel e do bom mel dos deuses, ó menestrel!

nos escreva – pedem.

e escrevo:

 

“a”

 

ele começa! nos abençoa com a primeira letra das letras,

vejam que o poeta escreve!

início, alfa do ômega, princípio do mundo e das coisas!

o poeta nos abençoa com o início!

 

“am”

 

ó, poeta, que honra temos nós de te ler.

já são duas letras, o casal

– ying yang da perfeita harmonia da Terra

 

“amo”

 

singeleza tua, ó nosso guia!

dizer que nos ama, assim, no poema

declarar a nós teu amor vário e solto, tão lindo de rosto!

a face do teu amar nos dirige nesse verbo, tão terno, conjugado “eu amo”

assim, a nós, no inverno – singeleza e ternura, poeta, que tens para nós e

 

“amor”

 

enfim! enfim! ah, enfim!

povos, escutai! nações se prostrem! que o mar acalme sua força na bonança doce,

que os feitos dos homens se reduzam a memórias,

que nada aplaque a força das quatro letras proferidas aqui, Poeta. nosso Poeta, sejas louvado!

se desta poesia fazemos nossa vida, tu és agora o que nos cria;

causa primeira e fagulha perene de nossa causa poética!

escreve-nos a nós do teu amor, esse que te brota e constroi-se no peito e que acalma

 

“amora”

 

e que acalma os mares e…

e…

e que acalma…. Poeta?

ó, poeta! poeta que nos escreve, que nos profere a mensagem!

longe de nós desafiar tua vontade, tua caneta e teu papel voraz, mas é possível ter havido acréscimo de letra!

falávamos de teu amor e dos teus feitos, da tua glória amorosa que nos cria e nos ama e

 

“é amora mesmo”

 

e…

…e que. nos. ama? e que não nos ama? prefere fruta ao bel-sentimento? blasfêmia! não mais te queremos, poeta! poetinha! sem amor!

recolhamos, pois, as oferendas e despojos. galguemos um criador de mais respeito, mais semântico; que nos profira a verdade, a Verdade Verdadeira.

passar bem!

 

“amora é mais saudável. vão por mim”.

 

.

(en)

deus, conjuga-se

No princípio era a palavra, e a palavra estava com deus, e a palavra era deus. Ela estava no princípio com deus. E percorria os campos e a boca dos homens, e a palavra estava no homem. E o homem tentou engolir a palavra pelo fruto. Tentou-se mesmo construir o algo mais alto pela palavra única; o algo mais “maior-que-o-homem” pra se ganhar os céus e chegar a deus. Mas deus já estava no homem. Era o verbo. Que não era o homem mas estava no homem. Que não era seu mas falava. Então a palavra saiu do homem. Foi escrita. Encadernada. Traduzida, publicada, revendida, assinada, constrangida, celebrada,  homicida, perdoada, merecida, abandonada. Esquecida. Humanizada. Nos livros e na doutrina, onde amor é verbo conjugado e homens ainda buscam o céu. Buscam-no pela noite, à mesa, palavra por palavra contada por caractere. Tela branca. Buscarão até jamais encontrar, a palavra que não está lá.

Quem sabe… as pedras.


E.N.

rio

.
dizem alguns que não tenho vontade

ou que, se tenho, evapora.

vou te falar da minha vontade:

é molhada.

pensa num desejo corrente;

quero confluir no teu rio.

encostar gentil no teu leito,

encontrar você pela margem

sem mudar teu rumo

sem molhar meu corpo.

quero aguar teu curso com meu leito

sereno

molhado

sedento.

quero te encontrar na curva!

tornar afluência em rio de um leito só:

meu e teu leito,

até o mar.


E. N.

corpoativo

.
a coisa é tão vendável

as coisas

a arte.

olhei à volta, tudo à venda

meu sono

teu choro

as cadeiras

nossa inspiração

nosso trabalho!

veja a força que faz

o braço do capataz

fazendo bem feito,

no tempo,

valor socialmente agregado.

penso cá,

meus pensares domados

planilha

brifar ideias

– eu me vendo!

e nem quero ver.

toda essa coisa de dinheiro

todo esse alarde-cifrão em pleno dom gratuito.

a coisa tem preço, colega.


E. N.

um ano em que as coisas eram de uma beleza indizível

.
são essas malditas imagens;

menina de vestido, uns dezesseis.

menino, jeans e camiseta, dezoito e poucos.

todo aquele verde atrás

montanha com névoa cerrada e algum sol.

juro que nunca vivi nada disso mas sei que eles vão dançar

com a música do ar

e o pia-pia das árvores, ali no topo

– e eu nem serei ansiedade! nadinha.

ela e eu a dançar – imagina só, aquele vestido de pano dela e  a rudeza dos movimentos dele,

fazendo todo o sentido do mundo,

fazendo e criando todo o sentido

mesmo quando não houver

mesmo quando chover

mesmo quando ainda não existirmos como nós e eu quiser pensar que a ilusão é a primum-causa de todas as coisas e do universo,

mesmo assim – eu quero estar errado.

eu quero estar errado!

eu quero estar cercado

de incertezas

quando o vestido chegar.


E. N.

bodas de esmero

.
escrever poesia sem inspiração é assim,

casamento de 40 anos.

amar sem querer amar

mas querer

quase não poder

e mesmo assim amar.

sem inspiração olha-se nos olhos

põe-se o anel desgastado

“lembra? você não tinha esse calo”

“talvez tivesse mas você não via”

e riem um pro outro.

imagens assim me impelem a escrever,

sem inspiração.

(suspiro)

vez ou outra choro.


E. N.

palavra do autor #2

A primeira vez que tomei a palavra por aqui, para além do eu lírico, foi pra comentar a menção honrosa que recebi em cinco poemas no III Festival de Literatura / Letras USP, em 2009. Muito bem, volto a falar dela mas em outro formato: um livro publicado! Pois não, meus poemas, junto com os de outros autores premiados, viraram antologia  poética publicada pela Editora Humanitas. Gostaria de dividir com vocês essa primeira conquista editorial do empório. Que bonito. Os poemas foram escritos em 2008 e mal fazem parte do repertório dos meus favoritos, mas não nego o valor dessa antologia: a vida pela arte, pouco a pouco, a acontecer.

O mundo agora é corporativo, vida é solidão. Mas ali na esquina, ó… ali, no menos provável do momento-lugar, vida e arte a namorar. Vem, Carlos. Vem prefaciar minha emoção:

“- Ó, vida futura! nós te criaremos.”


E. N.

anseio em sussurros

.
– …

– …

– Percebe isso?

– Hum?

– Tá percebendo?

– O quê? Vem cá…

– O silêncio.

– Hum.

– Quando se beija a boca se cala.

– Sim. Vem…

– O beijo cala… a boca. Aliás, a boca faz tanta coisa, tem tanta função.

– Já pensei nisso.

– Sério?

– Um pouco, sim. Boca multifuncional.

– Sim! Fala, canta, come…

– Assobia.

– Haha, também, e respira quando precisa.

– Também.

– Tanta coisa sai, tantas entram, palavras, comida.

– E o beijo?

– O beijo é o meio termo. Nada entra e nada sai, apenas permanece.

– Bonito.

– Talvez seja tudo isso junto e representa o calar, já que a

– Vem cá.

– Espera. Já que a fala é a função principal da boca. Comer é função importante, mas falou em boca pensou em fala.

– Eu penso em assobio.

– Ah, mas também é um modo de fala, entende?

– E o beijo não fala?

– O beijo fala, mas nessa linguagem outra. Prescinde palavra, som. Cala a voz!

– Cala a voz.

– Antes do beijo costuma haver uma conversa bonita. Um diálogo, ainda que pequeno, ainda que sussurado.

– E o beijo é o ápice disso tudo.

– E o beijo é o ápice, a consequência disso tudo, dessa construção. Nele é falado o que não se falou.

– Nossa.

– As bocas conversavam e o beijo cessa a voz…

– Pelo toque.

– Isso. Pelo toque une a fonte das palavras… são palavras que se tocam no beijo!

– Mudas.

– Mudas. Como os que se beijam, e assim se fala.

– E se toca.

– E silencia.

– …

– …

 

(EN)

euteamo

.
puro deleite fora viver esta vida

sem ti

puro de leite! branco, vívido, sem gosto.

amei minhas desgraças como amei a vida,

como amei você.

tão distante, tão fria – te amo!

eu te amo

te amo-lo a faca no esmeril

te cravo a faca no peito dócil

meu amor!

te deito no chão carmesim, teus lindos olhos fechados

tua boca

que não me beija me chama.

teu semblante que não me quer

me ama

suplica a vida

assim, assim, tão bela! enrubesce, toda sem graça

com meus tais modos

te vejo, enfim, minha

teu coração pára quando me vê

quando me sente aí dentro

pelo ferro que te cravo, minha aurora.

tua lágrima é minha

teu chorar é todo meu, como fora teu o meu!

casamos

minha noiva de branco e vermelho,

nossa aurora drummondiana!

teu gemer, meu céu agora, nossas núpcias

te amo

te cravo

– sou teu cravo, tu és minha rosa.


E. N.

paradoxo de Russell

.
este poema não é para ser lido.

pare de lê-lo, agora.

pare.

por favor, pare.

por que não paras?

por favor, não te avances nem mais um…

não te aguentas?

és movido, fácil assim, por algo além da tua força

– curiosidade desobediência afronta?

pare de ler! pare de ler!

pare,

pare,

pare de ler agora!

este poema não é para ser lido

e te obrigo a parar de ler, neste verso.

a última palavra que lerás será esta, aqui.

não te prestas pra leitor.

não respeitas poesia,

a pureza destas palavras que não devem ser lidas

e continuas!

ousadia, profanação!

pare! pare de ler!

como podes?

monstro! és monstro e não definirei teu nome.

maculas minhas palavras que não-se-leem,

adentras a virgindade literária com tua súbito-leitura

libido leitora

regozijo mórbido pelo caractere,

és sem caráter!

desrespeitas o véu das letras.

não te ouses avançar mais!

e não paras.

pare… de escrever.

paro.

paro de escrever que a leitura cessa.

deixe-me, ao menos, a sós com minhas palavras finais?

pelo teu bem

não devem ser lidas.

nãs as leia,

só peço este derradeiro favor:

não leia as últimas palavras.

porque, lê-las, como o fazes agora,

só faz de ti meu servo

e de mim teu mestre;

senhor da tua leitura,

o teu deus.


E. N.

poexiste

.
palavras não me escapam, nem uma!

que se pareça ainda com caco de prosa que sobra espaçada no branco, qualquer fundo, de escrita – mas não é. não me escapa.

antevi-a, bela e só

escrevi-a, bela e tão somente

criou-se

com meu ‘haja luz’ flanando no ar, a fluir – a se derramar! ah, do que chamo eu.

eu sou palavras!

sorrio dizendo, mais do que sou humano, mais do que sou feliz.

eu sou palavras!

silepse mesmo: parece errado não é, parece fora não é, parece gauche. transparece gauche, claro que é!

assim sou.

penso escrito, materializa; tua leitura me cria, eu creio, e tento descriar sentido crendo no caos. mas é cadência. palavra alguma escapou, eu quis.

me fiz, no erro do início com ‘me’. ço.

e fim.


E. N.

.
eu chovo                                                                   eu chovia

tu choves                                                                  tu chovias

ele troveja                                                                ela inundava

nós                                                                               nossa

vós                                                                               voz

reles peleja                                                               reles alcançava


E. N.

tudo vai passar

.
estamos fadados ao nosso tempo

e ao nosso lugar.

a família será a nossa até o fim de nossos dias,

ou a falta dela,

ou a sua abundância

(se Deus quiser haverá).

estamos fadados ao nossos amigos,

àqueles que conseguirmos conhecer:

tolerância aos que convirem, amor aos que nos virem

e assim será,

nesta vida que nos foi (fa)dada.

seremos nós mesmos até o fim das coisas

seremos

eu

e

você

no fim das coisas.

o fim

da nossa existência

não passará do comum – e chamaremos nosso

– nosso comum extraordinário, pois nosso, e só.

é tudo tão sopro assim

tão nada assim

nesta estrada humana, em que humanos divisam

o céu.

como não olhar pro outro, pro alto?

ah, o alto…

tornamo-nos Outro. e alados.


E. N.

original

.
quero voltar a certas origens

de espírito mais quieto e janela aberta de manhã pra ver o céu

– lembra do céu?

– meu o quê?

– não seu, céu.

– não.

era sempre (quase) assim:

um minuto ou dois olhando o céu antes de me trocar,

tomar banho e fazer o café.

lembro azul e grande, coisas brancas borrifadas aqui e acolá.

tudo belo e grandioso

e esquecido

como nossas origens.

como o Éden perdido no gênesis.


E. N.

florescência

.
vejo verdade nas flores.

podem até mentir uma pra outra

de soslaio, quando o sol se põe,

mas não para mim.

.

andar por um caminho florido

é sentir olhares de cuidado e consolo

todos verdade,

todos em coro,

aos que tento responder

com alguma decência:

olhar mais atento,

marcha em ralento,

mas é só contemplação.

é só contemplação humana.

.

o que me é caro, o que me é belo,

passa pela prova dos campos,

pelo soprar dos ventos e

o levar da boa-nova pelo jardim.

.

a essência da verdade

está, quem sabe,

na essência de ser flor:

ser que é, ser que faz ser.


E. N.
[2006]

do retorno

.
eis a vida! como não?

ei-la sempre

a guiar os rios da mágoa

revelar espelhos d’água

e evaporar,

num simples gesto de amar e sonhar

(e sofrer).

simples avança.

cadinho a cadinho,

neblina vai cedendo seu lugar pra redenção:

olha o céu a ressurgir!

tanta nuvem e passa luz, meu Deus!

oh lá deus-Sol

vem nos saudar lá de cimão,

e vai manhã e tarde

a começar do alto e terminar no chão;

ah Luna! doce lua,

vem cá que a noite é fresca de luar-ilusão!

noite e dia transgressão,

olhar em frente é ver mundo a me chamar

‘é viva!

vem, que é viva, rapaz!’

eu vou, é claro! sou rapaz e vou, é claro!

sou vivo e paixão.

bota-se os pés no eixo, pois não?

e deixa-se o lar pelo céu.

ah, exclamação de vida!

é terna onde encontra

e vence.


E. N.

grilhões de favos de fel

.
não saberia precisar quando mas tornou-se poetisa.

poema

que rima com a vida que profetisa – tão bem

com seu olhar de Apis mellifera que é.

não des-é, apenas o ser fala

e o que se ouve é canto nestas minhas ruínas de espírito manco

turvo

quase aposentado da aventura de buscar

(quando era boa de ir eu ia, mas hoje nem sei mais procurar).

me doei tanto

me doeu tanto

aí vem uns ventos tais de verbo assim escritos

e assopra

e quase para de doer.

porque quando se vê

é o próprio nós, eu, que tava fizemos tudo errado.

é a primeira, não a segunda pessoa!

no sacrossanto ofício do viver em que alguns de nós verborragem

mas que outros, tais tu, purificam.


E. N.

a D. V.

pera uva maçã salada mista

.
Encontrei-a em cima da mesa, toda oferecida e comestível.

Pele lisa, amarelada, aparentemente doce. Muito doce. Era a última da cesta, a última e suculentíssima pera! Quis devorá-la ao primeiro olhar, peguei-a na mão com facilidade incrível. Era leve, madura, da mão à boca um só movimento – dentada master… mas não. Não a mordi. Contemplei-a por alguns instantes: pera periforme, amarelada e lisa. Por que não? Coloquei-a de pé na mesa, com a parte mais gordinha pra baixo, aquele cabinho preto pra cima e ali ficou ela, em cima da mesa, olhares de pera.

Pera.

Queria conversar com ela. Não, não venha me julgar! Não é maluquice  (e se fosse, cada um trate da sua). Queria conversar com a pera, papo de homem e fruta.  Parecia ter tanto pra contar! Histórias alegres, cheias de infância e frutose. Imagine uma pera a conversar, desbunde! No mínimo haveria o mértito de ser inédita a conversa. Sem delongas humanas, papinho furado, “9dads?”. A conversa em si seria novidade, ora se não. E conversei. Tentei, aliás. Padronizei a linguagem:  silêncio. Olhei-a profundamente (fiz dois furos pra chamar de olhos) e me calei. Seria a absorção máxima. Tudo o que ela poderia me dizer naquele silêncio patético, eu ouviria.

Fitei-a.

Sua forma, o cabinho, sua cor, seu aroma, adentraram minha mente em níveis incríveis de assimilação. Nada do que aquela pera era ou podia ser escapava ao meu entendimento; era um algo domado pelo meu intelecto, um ser despido de segredos ou misticismo – a pera não era se  não o que eu sabia que era! Mas faltava o diálogo. Captado estava o emissor mas, e a mensagem? Fitei-a mais profundamente, aproximei o rosto e seu aroma ficou mais forte. Minha visão a olhava, olfato aspirava, tato sentia… mas e o ouvir? Seu silêncio nada me dizia, mesmo com a proximidade, mesmo com meu paladar aguçado, a suculência em minha boca, a cada dentada uma descoberta de sabor, mas nada de resp… E sem perceber comi inteira, de cabinho a rabão.

A pera assimilada se foi, sobrou apenas uma carcaça cheia de caroços. Ela ia dizer algo, tinha certeza! Mas a lixeira foi seu destino, pobre pera.  E logo que a arremessei, e seu corpo disforme fez “tchá” no saco de lixo, entendi tudo. No final das contas, havia conselho nos entremeios da conversa:

Ex-pera.


E. N.

serrote

.
vou parar de contar as minhas histórias

os meus amores

vou começar a viver as minhas histórias

os meus amores.

vou viver e amar de maneira tão inusitada

que nem vai parecer que vivo – ele não ama!

tanto define-se, pouco existe-se.

falta beijar menos

amar mais

falta querer menos

amar mais

falta pedir menos

amar mais

falta sorrir menos

amar mais

falta viver menos

amar mais

falta amar menos

viver mais

e

(diacho)

falta fazer menos poesia.


E. N.

contraparte

.
hoje é dia de arte sem açoites

quase sem restrição

(o corpo ainda é carne, há restrição).

os olhos serão luz

na treva de uma angústia a declamar.

haverá quem me ouça,

haverá quem me julgue,

haverá alguém

do outro lado do rio de verso.

e o verso

será diálogo convalescido

que alcança o que na prece se perdeu.


E. N.

spirit in the waste

.
i saw them coming in pairs.

not stealthy enough, they were there to be seen

in pairs

unawakened.

reach them in my condition seems

undoable;

what can i do besides poetry and weep?

i weep

i write

i keep

and i desire,

because it is still desirable (until when, i do not know).

i saw, they came in pairs.

to become one of them

i must find someone

or split myself

and i keep splitting.


E. N.

bossa trovadoresca

.
dos nossos segundos eternos, insensatos, surte uma fala que diz: explosão!
as cores saltam, as aves voam, nem tudo é ilusão.

e no teu olhar denso, no teu olhar fundo,
veem-se desenhar subespécies desse amor vagabundo

mas presente
(vale mais presença fria que calor ausente?)

o que quero é mágoa, o que tens é água nos olhos de sal.
do mundo é viver de lembrança e cantar a esperança: “livrai-me do mal”.


E. N.

qual lei-mar

.
vem e; vai
vem e; vai e vem
vai
das ondas
e a cada ciclo
cascalho novo
rebenta rochas
areia do fundo

quando vão
são aventura e vastidão
horizontes vencidos
– escapam, alcança-se, escapam
e mundo conquistado.
conquista-se com o ir
e o ir é
lançar-se à maré.

então vêm e são nossas
somos-nas, nós mesmo,
a retornar,
assimilar o tudo
em cada parte
do nosso nada, ou quase
– saudade
de cantos vários.

e nesse bailar de águas,
nessa redundante
fuga
a vida constrói-se
mais rica e profunda
no transpassar fronteiras
para além
do além-mar.

o subir da maré
– o aguar do curso-mar
é avançar
sabendo-se ter de
voltar
sem saber pra onde
que a praia é outra
o rumo é outro

o vento muda…
a água é
nuvem
vai; e virá.


E. N.

a R. L. [2009]

rima com ela

.
no entanto,

nunca fui de falar dessas coisas até que

enfim.

é tanto encanto que

mesmo em face do maior

espanto

me rendo ao canto e escrevo mais um verso

e outro mais

e mais um tanto

e sem pranto – que é santo!

este ofício que me acometeu,

o de escrever uns versos poucos

e brancos

a ela.


E
. N.

laços e negra vila

.
é tribal
o círculo que se forma em redor do fogo
– inzìlo, diz changana,
que acende o corpo e espanta o frio.
rebenta-se em urros
uivos
canto de guerra em tempo de paz.
o enlace das mãos
ora dadas
ora estendidas ao itílo-céu
reconhece-se por tribo,
por dança,
por deus.

indagam olhos brancos:
“que queres com meu deus, forasteiro?
por que apagas meu fogo bantu?
que nos aquece, que nos faz um?”
olhos brancos,
cenho negro.
apenas almas
a penar
apesar de todo (e autêntico) esforço.

unidas almas.
laços, mão a mão, no círculo de fogo,
na terra incontinente em treva a clamar
“ni làva à kuphuza màte!”
“kuphuza máte!”
queremos água!
água
que não possuem.

a líquida e a eterna, vieram lhes trazer.
vieram lhes ser servos,
os servos dos servos, honrar-lhes o pisar descalço!
e honram, passo ante passo
passo e palavra
palavra a palavra
que traz pfùlàà-chuva.
água
na África
tão árida…
e faz-se a colheita.

o inzílo agora queima a fio
desconexo da aldeia, assando caça.
há sentido novo no calor.
um sopro quente,
provindo de uma estrela tal como a de
belém.
desce em suave dança a remexer flores e une
o eu
o outro
e Iavé
em triuno laço de amor.


E. N.

a A. G.

belos álibis de Atlas

.
do extremo ocidente é que vem o clamor.

chama seres etéreos pra fazer companhia

na noite fria,

no dia quente.

fora este teu álibi,

teu alívio?

separar Urano e Gaia

pra que a vida perdurasse?

Perseu te fez pedra

(trouxe a Górgona de olhar fulminante)

tornara-te, pois, a primeira coluna atlante:

ombros acostados na abóboda celeste,

firmeza imortal,

arquiteto pujante.

grandioso gigante, filho de Jápeto!

titanesca é tua força,

titanesco é, também, meu fardo.

atenta cá pra baixo,

pra este humano dos meus gestos

repara no meu canto

que se eleva junto ao teu;

tu foi dar contra o Olimpo,

eu dei contra Jeová.

solta Urano

(o mundo acabe)

– somos deuses a chorar.


E. N.

a I. B. [2010]

em desejável paz

.
deito-me nas falésias

pra que o peso do meu corpo penda morro todo abaixo

e penso que

se não houvesse meu corpo não haveria pendor

nem ação da gravidade.

meu corpo quer o abismo

pende

repuxa

deseja-o apesar da queda

– quer, não a queda, mas sua sensação.

meu corpo

obituário e glória

precipita toda uma consciência de ser a um desconhecido ‘abaixo’

lá embaixo

onde corpos e vidas caem,

lá embaixo

onde sensações terminam

e descansam incapazes.

penso

que corpos densos são mais propensos à queda.


E. N.

por que choram os que dançam?

.
não dá mais pra distinguir choro de fúria!

e o bailar de corpos agora é

água na curva do rosto.

entramos aqui amadores

saímos amantes!

do palco, das luzes, das bênçãos da deusa da arte

– dá-nos a bênção, ó inspiração!

divina, profana,

consuma nosso corpo de barro,

este apenas suporte da tua arte, da tua alegria!

e pra quê distinguir deuses de demônios?

somos o que somos:

aberrações celestes, monstros de pelúcia

esbanjando graça,

ministrando paz.

meus amigos! meus irmãos.

não dá mais pra distinguir corpo de maquiagem,

nem o que somos de nossos papeis.

entramos aqui pessoas

saímos daqui menestreis.


E. N.

à mansão 2010, anjos vestidos de monstros

templo

.
o corpo se vai, esvaindo-se em cada segundo-areia – tic que passa (tac). o corpo muda cresce e pára, e muda pra velho e doente.

o tempo

que não passa, não muda, não voa, não anda, mas é e faz, e se mostra e marca. o tempo que marca o corpo, tempo numérico, tempo-lembrança, tempo que nunca existiu e não existirá – tempo fora de tempo.  tempo que paira sobre o espaço e sobre nós e percebe quão efêmero é o viver e o amar.

o tempo não vive nem ama.

 

E. N.

em versos, sem ti

.
não gosto de homem.

não gosto de mulher.

a coroa da abstenção é esta:

não saber erguer os braços no dia da redenção.

descobri que não sei amar como amam os homens:

de manso, sem culpa, sem medo, sentimento.

amo

como o bronco lavrador na terra

capencando a enxada

trepanando seiva bruta;

ou o poeta

em palíndromo dígrafo hipérbatos trava-linguísticos

procurando o fonema

desespero verbal-sem verso, inversão de verso em rima branca

e diversos onomatopeicos monossilábicos

nãos.

suor no rosto. o rosto nu, suor.

esforço, esvai força, reforço sem força alguma do céu.

é pra cima que se olha

nos momentos de sem fala, sentido.

pros seres do alto e ouvidos abertos

(aos doentes e descrentes, não para os que choram);

pros deuses e seus banquetes de hidromel

que

com toda a certeza possível

não amam.


E. N.

éden

.
era uma vez um tempo

que se apaixonou por um espaço

e vice-versa.

foram então pra um motel

e se amaram por horas,

em cada canto do quarto.

o tempo passou,

o espaço mudou,

mas o tempo

não quis dar espaço

ao tempo

que o espaço pediu;

num curto espaço de tempo

o amor acabou,

o enlace ruiu,

e o pequeno bebê nasceu órfão.

seu nome, humanidade.

 

E. N.

Sonata em soneto

.
O véu de nuvens em desfazimento
revela em transparência a tua face:
Palidez sensata, aguarda o momento
em que o sol, já desperto, a traspasse.

A distância terra a céu de indumento
serve à nossa sina, como ousasse
quebrar o que de certo foi intento
daquele que de todos fez enlace.

Seria amar se não fosse perder-te;
escrever – se é chorar em palavras
choro, desatino, tento amover-te!

Que virá? Quem virá? Lua minguante
É olhar para o céu, cantar oitavas
e arder, a sabor do vento errante.


E. N.

O amor de Deus

.
Nunca te deixarei. Nunca te abandonarei, escrita minha! Apreciam-te olhos lassos, de percalços rudes, mal amados, mau visionários, verdadeiramente cegos para o que é distinto. O que é belo não lhes ultrapassa as retinas. Criatividade, pedem transgressão de normalidade, dou-lhes o que pedem (uso-te para lhes dar o que pedem) mas eles não querem! “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam”. Escrita minha, se até nosso salvador foi rejeitado. Valeu a pena? Agarro-me, apreendo-me a ti e não ouso responder. Ouso sim, como não? E o valer se condiciona à vida demonstrar suas belezas. Tem se esvaído, não minto. Tem se desiludido e mostrado a mim seu rosto triste. A própria beleza da vida a se desiludir? Sim, o meu conceito dela – era mais um conceito, ao que parece, mantido vivo por aparelhos de escrever e olhar pormenor ao derredor. Minha escrita, vede o que te ponho a escrever! É justo passar o pranto ao papel pelo teu intermédio, assim? Não com você, não agora, minha escrita. Tu que mantém vivo meu conceito de mim mesmo, a essência do viver abundante numa paisagem de mórbida aleatoriedade.

A graça de Jesus Cristo

.
Não será o olhar frio do ministério burocrata oficial da seleção exclusionista que mudará um fio de nada do meu tudo. Vestindo meu pijama, acendendo a luminária, sentado à escrivaninha, são essas as armas com que luto – escreverei enquanto houver papel e com o que marcá-lo. Mas olho para o céu em ato de fraqueza, em tentativa de humildade. Eu oro ao deus do contraste causador da leitura, à divindade suprema da assimilação de semântica, à deusa pungente do julgamento valorativo… oro e peço à todos o perdão da crase indevida e minha tardia coroação. O rei da escrita assim, como agora.

O olhar em secreto revelado a pelo menos o ator do ato oculto é o mínimo que um ser humano artístico necessita. Esta é minha prece em fervor sincero.

As consolações do Espírito Santo

.
Oro a outros deuses por não entender o porquê de o meu ser tão permissivo. Não confunda: não me sinto livre, sinto-me largado. Ao mendigo que busca encontrar o verdadeiro nome do Senhor é dada a explosão cósmica de um nirvana; ao inconveniente bêbado que chora por uma chance, uma linda oportunidade de recomeço, um encontro inesperado com o amor; à sonhadora viajante que se frustra com o rosto triste do conceito de vida bela, o curso, a chance, o enlace dos sonhos.

Meu deus.

Meu clamor, meu choro, minha frustração. Carregue-os como fitas amarradas no seu divino dedo e volta teu olhar ao seu poeta – que tanto esperou, que tanto espera.

bastante

.
parece auto-boicote
mas é só idealismo
– o que restou, claro… o que restou.
desse não abro mão
e que venham com
filosofias

conveniência
normalidade
– não abro mão.
não abro mão
da não companhia
confortável aos que pensam:
pensar a vida,
o futuro,
o caminho próprio
(espalhafatar-me-ia se pensasse
o caminho a dois
antes de assimilar o meu próprio).
basto-me e me curto,
ouço minha voz em pensamento e dialogo
observo tudo
perscruto todos
seleciono.
não abro mão da seleção!
selecionarei até que o valha a vida
e seguirei pelo caminho
– é o que vai importar, no final das contas:
seguir
pró
seguir
enquanto brilhar o sol
enquanto ferver a água do café
(“pouco ou muito açúcar, lindona?”)
havendo ou não
interlocutor.
que venha, é claro!
é o desejo.
mas, vindo,
que a deseje
que a admire
que a queira

que eu queira
me entregar.

E. N.

Sirtaki

Eu queria te agradecer. Na verdade, um simples agradecimento não representa tudo – tudo o que eu queria representar e te passar neste momento; mas tem bastante a ver com o que sinto e é uma forma de expressar o que está aqui dentro sem falar demais. Eu queria te agradecer por ter me escolhido. Agradecer por ter aceitado andar junto a mim, por voluntariamente ter aceitado me acompanhar nesta loucura que é a vida. Zorba, o grego, já mostrava a vida como dança: O que é a vida senão uma dança? Vou além e pergunto: O que é a dança senão a loucura dos homens? A dança que não tem início, meio ou fim – não precisa ter! E, não tendo, surge do nada e para o nada vai, ao encontro de cada vazio do olhar, cada falta de sentido. Não há sentido: há um corpo em movimento, patético, sublime, acompanhando melodia. A dança é a loucura dos homens, tal qual o amor. Ser humano lógico, racional, como entender o amor, tão ilógico, tão providencialmente irracional? Somos loucos, os que amam. Os que fazem compromissos no amor – como! Como decidir andar ao lado de alguém até o fim da vida? Isso é demasiadamente não-humano. A loucura humana, lindamente desumana, que seja! Não catalogo, não delimito: Quero dançar com você. É ilógico, mas quero. É irracional, mas é a loucura: é a dança, é a vida, é o amor – é meu amor, é você.

 E. N.