seremos

e houve um momento em que o barulho era ensurdecedor, e se queria muito, e tudo, e todos falavam ao mesmo tempo, e diziam o indizível possível do querer a, mais b, mais c, mais d, mais disso, mais daquilo, e sempre mais, e nunca mas, e sempre, e tanto, que mesmo em face do maior enquanto, não se achava canto algum pra se parar e pensar, só querer – era tudo um grande, grato, gratificante, simples e sonoro – sim! sim, sim, sim, e assim que se pode perguntou-se “quem és”, e foi dito: “id”. por todo o mundo. e fazei o que quiser, tanto na judeia, na samaria, e até os confins da terra, pois nem tudo é da lei.

e houve um momento em que o silêncio era ensurdecedor. e tudo era de uma ordem incrível e um progresso estarrecedor; e não havia formas arredondadas, tudo tinha canto, conto e hora marcada, e havia rimas raras e bem articuladas – pense num mundo quadrado, pense, pense mais um pouco, pense numa caixa – não, pense dentro da caixa, calma, mais pra direita, isso, existem leis, regência verbal, vernáculo essencial, recatado, idolatrado – salve, salve! e perguntou-se “quem és”, e foi dito, sussurrado, super baixo: “super ego”.

e houve um momento em que se olhou no espelho. eu. meu. deus. eu, meu deus. eu sou meu deus, eu, seu, meu, eu? não seu. não sei. quem és. quem é. quem sou. eu.

e houve um olhar pro céu. que não era seu mas era possível. que não era meu mas me queria. e não queria tudo, todo barulhento;  e não me queria contanto houvesse silêncio. queria assim, leve, tal qual eu… estou.

e perguntei-lhe “quem és”. e foi dito: eu sou.

.
e todo o resto se aquietou.

.

(en)

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totacidade

arte de rua
é parte tua
e parte nossa

do fino
à fossa

e vai de lá à cá

das galerias
às galerinhas

do belo
ao beco

do longe
ao perto

do branco
ao preto

do cinza
à cor

do traço
à dor

do preço
ao pixo

do luxo
ao lixo
e ao luxo de novo

e do pincel
ao spray

da liberdade
à lei

da tinta
ao grafite

do espaço
ao lugar

da inspiração
à piração

da piração
à ação

do todo
à parte

do lodo
à arte

urbana
fulana
ciclana
profana
beltrana
mana

arte
que
existe

parte
que
resiste

à totacidade.  

 

(en)

pai nosso, cristãos no céu,

“santificados”, sujam vosso nome.

veio a nós avesso reino,

~seja feita a nossa vontade~

assinam na terra como seu.

ó, pai nosso, de cada dia nos dá o “hoje”!

doa nossas ofensas assim como doemos

por quem tem sido ofendido.

e não nos deixes; caímos em tanta ação!

mas, livres… somos do mal.

 

em nome de jesus: amem.

 

(en)

eu sou

eu sou ela

eu sou manuela.

eu sou um ventre possível,

de um ventre provável,

de um vento infinito.

eu sou ela, eu sou tantas!

flávia, ana, que completa liliana,

que um dia

será cantora,

ou faxineira,

ou não.

ou solteira, ou de rondônia,

ou, simplesmente, aquela lá:

belíssima.

eu sou cecília,

papel, caneta e luta,

eu sou inteira.

eu sou ela

não sei fazer lasanha

mas sou ela

não tenho filhos,

mas sou ela

eu sou elas

eu sou todas

eu sou outra

eu sou esta

à imagem e semelhança

eu sou,

eu sou o que sou:

filha

de deus mãe.

.

(en)

o menino que nascera duas vezes

era um menino
que nascera duas vezes.

a primeira foi de ventre
de sangue
debaixo da ponte

a segunda foi de vento.

mãe na rua,
mão na roda
nasceu de dores difíceis
e logo se pôs a andar,
tentar, pedir,
e outros infinitos
infinitivos

dia sim não dormia
dia não semeava
es-colheu andar
com gente que
não tinha sonhos,
também.

e fez besteira,
daquelas de só fazer uma vez,
mas o dia era da farda
deu flagrante, xilindró,
de menor,
pela primeira vez foi pra “casa”.
penou pra viver
fez planos sem olhar,
anos e anos
de dedo na cara.
nos longínquos dezoito,
a ansiedade
pra ver como reagia
à liberdade, enfim.
pôs os pés pra fora

a mãe tava no céu
a mão tava no bolso,
vazio.

mas o peito não estava mais vazio.
o olhar, finalmente, subiu do chão
pro horizonte.
pela primeira vez na vida, ali de pé, ele sonhou.

o vento bateu no seu rosto.

e renasceu.

 

(en)

mais cara

.
eu mascaro
tu mascaras
eu mascaro
tu mascaras

eu mais caro
tu mais caro

qual, qual é teu preço?

não, não esconde não!
tô te vendo aí na penumbra, atrás desse óculos de acetato e nariz postiço!

qual é teu preço?

e você também aí de faixa no olho, cara coberta, acha que me engana?

qual é o preço?
quanto você custa?
quanto custa, pra você, se esconder assim?

tem vergonha de quanto vale?
tem medo de barganha?

então mascara pra ficar mais cara?

não…

buscando a mais-valia da humana condição sem lembrar que o amor do mais perfeito é doação
– não tem pedágio, não tem senão, não é baile mascarado: mostra a cara, vai aberto – coração!

mas sei que tá errado esse mundo de ilusão;
não é desse jeito que se vive, meu irmão.

e me desculpe, por favor, o meu tom de acusação
– é assim que eu mascaro toda a minha solidão.

e chega. de rimazinha.
e desse ritmo batido que respeita a ortografia.

e me desculpem. a poesia.
é assim que eu disfarço toda a minha hipocrisia.

tirei. a máscara.
tirei. a roupa.

joguei.

no vento.
nu. vento.

nudez.

medo.

sem acusação.
sem poesia.
só resta eu.

só.

ouço alguns passos, tem gente vindo aí.
alguém me empresta uma roupa? rápido! alguém? por favor!

alguém. alguém tá vindo aí. um só.

olha meu estado, por favor!

quem tá aí?

tá vindo alguém que parece rimar com

luz.
cruz.
conduz.

que vergonha, tô pelado, tô sem nada. alguém, por favor…

oi?

pegou pela mão. posso ir assim? tá.
só queria saber quanto custa o passeio, porque eu tô uma desgraça.

ah…

é (de) graça.

 

(EN)

éden

.
era uma vez um tempo

que se apaixonou por um espaço

e vice-versa.

foram então pra um motel

e se amaram por horas,

em cada canto do quarto.

o tempo passou,

o espaço mudou,

mas o tempo

não quis dar espaço

ao tempo

que o espaço pediu;

num curto espaço de tempo

o amor acabou,

o enlace ruiu,

e o pequeno bebê nasceu órfão.

seu nome, humanidade.

 

E. N.

Mendigos, domingo

Pedra, pau, perfura, ponta-pé.
A cidade, de assalto, sucumbe sem fé.
Espectros a rondavam
discretamente, camuflados
pelo entulho e pelo cheiro;
os outrora sonegados
por aqueles que têm teto
irrompem atentado ao país e ao pudor.

Rufar de tambores na lata.
A bandeira, o emblema, sucata.
O grito que sai é
de boca sem dente,
de peito sem ar,
é fúria indecente.
Podridão é jogada na janela.
Podridão é o mote da revolução.

Levante dos becos dos cantos,
da margem, do lixo, dos tantos.
Lixo na rua, lixo espalhado,
lixo é o que têm, lixo é o que são.
A guerra é de dia, que o dia revela:
Querem respeito, querem um chão.
Nada temem;
sabem que os temem antes e mais.

Penca, pito, porre, podre, puta;
cospem-rasgam-xingam, hoje é luta.
Solapando o deve-ser,
sempre-foi-e-será,
mas com pressa, com mais raiva
que o dia minguará.
Podres de roupa contra podres de alma,
é o que dizem, é o versus em questão.

O embate se dá e a cidade responde:
Metralhadoras, tiros, não importa pra onde.
Mira na massa suja, tiro na massa suja.
Cerco, caça, morte, não deixem que fuja!

Barulho arrefece.
Silêncio cortado.
Doze badaladas retiniam retirada.
Dia santo se vai,
devoção se esvai,
não há mais formalidade nem fervor.
Há uma causa sem combatente,
e muito lixo a recolher.
Aos poucos e aos montes,
recolhem-se.

O semblante é sangue e redenção.
É redenção!
Sacrifício feito, pecados perdoados,
o chão de pedra, carmesim,
agora é cama quente.
A boca se cala,
o peito aquieta,
a fúria enobrece,
o mote transmuta:
Está consumado.

E. N.

menção honrosa – festival literário USP 2oo8  ]