lúcia

Quando ela nasceu, o primeiro sorriso foi pra mim.

O músculo orbicular dos olhos se contraiu, levantando o prócero e o corrugador do supercílio, enquanto o zigomático maior distendia-se pelo maxilar, abrindo uma pequena fenda: tímida, mas sem dúvida alguma feliz.

Aos pouquinhos abriram-se também os olhos. Brilhavam, tão cintilantes que lhe deram nome de clareza: Lúcia.

Pequenina, estendia os braços a quem quer que fosse. Buscava, desde criança, um algo que a fizesse se sentir inteira. Sentir-se Alcançada.

Mas não se viu encontrada.

Os braços eram curtos, as distâncias compridas, a mãe foi trabalhar longe, acabou por se perder na vida, e Lúcia crescera com a vó que não demorou a partir.

No orfanato, os braços se estendiam novamente: arrumava a cama, guardava as tralhas, lavava a louça, dobrava as toalhas, agora sim ela seria Aprovada!

Mas não se viu encontrada.

Os olhares eram todos vagos, ninguém lhe dava trela: ô menina escura, limpa aqui, e ai se queimar a panela! Não deu pra ela. Certa noite, deu a mão pro silêncio e fugiu pela janela.

Na rua, seus braços se estendiam nos faróis; não demorou a vender bala, a mando de um garoto por quem se apaixonara. Agora sim, ela seria Alimentada.

Mas tampouco se viu encontrada.

O garoto lhe tomava o dinheiro, pra ela não sobrava nada. Comia coisa ou outra que lhe davam na calçada, até que uma mulher lhe deu um livro preto, tirou uma foto e levou-a pela mão.

No templo, os braços do povo estavam pra cima. Lúcia sentia um quentinho no peito, do qual o nome não sabia, mas lá estava, quem sabe agora, finalmente, ela seria Abençoada.

Mas não se viu encontrada.

Menina, você pergunta muito. Menina, você se veste pouco. Menina, cadê o dízimo? Menina, esconde esse corpo! Não deu pra ela. O quentinho esfriou, a porta se abriu, à rua voltou.

Descobriu que vender bala rendia menos que vender quem era. Lúcia dos Olhos Brilhantes, sua nova fachada, e entregou-se de corpo e (sem) alma pro ofício de ser Abraçada.

Desencontrada.

Os braços não estendiam mais. Só os daqueles homens que, dela, pediam “ais”. Perdeu a paz. De si mesma só queria o esquecimento – olhar pra um espelho jamais!

Lúcia estava esgotada. Não se sentia inteira, não se sentia nada. Numa noite, nos quases da alvorada, conversava com o vazio e não viu o carro que vinha na direção contrária.

Então se encontrou, no chão.

O músculo orbicular dos olhos se contraiu, rebaixando o prócero e o corrugador do supercílio, enquanto o zigomático maior distendia-se pelo maxilar, fechando uma pequena fenda: tímida, mas, nada. Os braços se estenderam na estrada.

Lúcia está no céu. Os olhos ainda brilham, como os de amantes.

Encontrada.

Não tem mais nome, não tem mais corpo, é apenas luz. E palavras.

Enquanto ela percorre um rio celeste, envolta por campos de morango, eu me lembro daquele dia quando ela sorriu pela primeira vez, pro alto. Quando ela sorriu pela primeira vez, pra mim.

Mal sabia ela que, naquele instante, eu respondia: pequena, você sempre será Amada.

 

(en)

Anúncios

Um comentário em “lúcia

comente (;

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s