tristeza

A menininha com sotaque lusitano chegou chorando para a mãe.

Mataram Jesus na cruz, mamã. Mataram ele.
Tenha calma, minha filha. Isso foi há muito tempo.
Mas mamã, é muito triste.

E de fato era. Tanta força nessa história de milênios. Tanta dor. Muitos dizem que há verdade; outros, inspiração. Alguma coisa houve ali que moveu pessoas e olhares para cima. Que distância tem do céu as mãos abertas da mulher que reza com rosto no chão? Quantos decibéis no choro da mãe que mora no viaduto e não tem pão pra dar ao filho? Quão rápida é a ambulância que socorre aquele senhor? E veio um cara falar de amor. Levantar a cabeça da mulher e tirar-lhe a culpa. Pegar na mão da mãe e dizer que ele cuida dos pequenos. Visitar o senhor assegurando-lhe, ainda hoje, o paraíso. Diz-se que na cruz sobrou amor. Não das mãos dos que a ergueram, mas das do que foi erguido. Penso que no turbilhão de sinestesias por que passava naquele momento, entre passados, presentes e futuros, por um milésimo de tempo, num derradeiro fragmento mental, ocorreu a Jesus a imagem da menininha de cinco anos a chorar sua morte dois milênios depois. A menininha que concluiria sua tristeza com a mais pura compreensão:

Tudo bem… algum dia ele ia morrer bem velhinho mesmo.

E o céu sorriu para sempre.

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Um comentário em “tristeza

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