porção

Minha mãe conta de quando seu pai, Elias Nasser, ia com os três filhos para o bar beber SevenUp, lá por 63. Para Leilinha, Iana e Toninho era a festa. Andar com o pai, sentar com o pai, olhar para o pai. Seu Elias fazia tudo de rotina, sem deixar de sorrir quando os rebentos desatavam a contar seus feitos. “Briguei com Tó” “Brinquei com Paula” “Caí de bumbum”, todos riam. Mas na hora de sentar à mesa, ritual. Garrafa de vidro verde acompanhada por três copos. Uma garrafa pra matar sede quádrupla, que dinheiro à época era metade. Ou terço. Garçom pousava o vidro na mesa, estalando tampa fora enquanto sorria para os quatro. Seu Elias retribuía com semblante sereno, agradecendo mais do que pedia o razoável. Era homem sensível, seu Elias, sobretudo à vida que não lhe sorrira tanto. Viera humilde da Síria para o Brasil, encontrara a esposa mas também o álcool e um certo vazio. Era artista nato. Desenhava rostos e paisagens incríveis, sem ter nunca tido uma noção de traço. Era apenas dele esse talento. Dele e do mundo todo, que o perderia um ano depois de nossa história. De volta à mesa, ali está seu Elias erguendo com destreza a garrafa sobre os filhos. Era habilidoso com as mãos, mas não pudera viver de arte – sua arte intrínseca, eliástica, nasseriana: nos dias úteis, enrolava meias para revender no centro da cidade. Seu tempo, sua vida, sua força, a vestir os pés de boa gente com algodão de boa linha. Quinhão de mais-valia necessária à sobrevivência, que no caso lhe custara a arte e rendera uns tostões para matar com SevenUp a sede da criançada. Era esse o momento sagrado. Três copos alinhados. A garrafa levemente a deitar no ar, entornando gargalo à boca do primeiro copo. Líquido espumeava alegre no fundo do vidro, crescendo com chiado e bolhas. Subia um dedo e parava. Próximo copo. Subia um dedo e parava. Próximo copo. Mesmo ritual. Recomeço, que a meta era igualar. Níveis sempre equiparados, seu Elias fazia questão. Vidrados, os olhos dos rebentos auditavam cada movimento. Participavam fervorosamente da missa do pai. Ele, o capelão, a prover de cálice a igreja. Os pequenos, seus fiéis, balanricando os pés rente ao chão inalcançável. A garrafa reluzia verde; vinho incolor à boca dos recipientes, dedinho em dedinho até secar gargalo. A ceia estava servida. Bebamos em memória dele. A porção de cada um, sorvida num gole só. E limpar os lábios com a manga da camisa.

Pequena porção de vida foi que teve meu avô, seu (meu) Elias. Os dias de um e outro sempre contados à parte; não os meus. Nossos dias têm o mesmo nome. Carrego-o comigo nas letras e no caminho. Carrego-o na transgressão. Vontade de viver a arte por nós dois, vencer o mundo, vingar a perda. Fosse a vida mais generosa, teria-o agora por cima dos ombos a me ler. “Ame ler”, sussurraria. E eu explicaria que escrevo e sou o maior leitor – de mim mesmo. Eu lhe escreveria sempre. E ele me desenharia. O livro infantil que faríamos juntos até hoje me encanta. E assombra. À sua sombra eu canto. Hoje escrevo não apenas pelos 50 anos de sua morte. Mas para que, no dia do reencontro, criações possam se tocar.

Com amor,

EN.

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