lúcia

quando ela nasceu, o primeiro sorriso foi pra mim.

o músculo orbicular dos olhos se contraiu, levantando um pouco o prócero e o corrugador do supercílio, enquanto o zigomático maior distendia-se pelo maxilar, abrindo uma pequena fenda: tímida, mas sem dúvida alguma feliz.

aos pouquinhos abriram-se também os olhos. brilhavam; tão cintilantes que lhe deram nome de clareza: Lúcia.

pequenina, estendia os braços a quem quer que fosse. buscava, desde criança, um algo que a fizesse se sentir inteira. sentir-se a-lcançada.

mas não se viu encontrada.

os braços eram curtos, as distâncias compridas, a mãe foi trabalhar longe, acabou por se perder na vida, e Lúcia crescera com a vó que não demorou a partir.

no orfanato, os braços se estendiam novamente: arrumava a cama, guardava as tralhas, lavava a louça, dobrava as toalhas, agora sim ela seria a-provada!

mas não se viu encontrada.

os olhares eram todos vagos, ninguém lhe dava trela, ô menina escura, limpa aqui, e ai se queimar a panela, não deu pra ela; certa noite, deu a mão pro silêncio e fugiu pela janela.

na rua, seus braços se estendiam nos faróis; não demorou a vender bala, a mando de um garoto por quem se apaixonara – ah, João Lino! agora sim, ela seria a-limentada.

mas tampouco se viu encontrada.

João lhe tomava o dinheiro, pra ela não sobrava nada. comia coisa ou outra que lhe davam na calçada, até que uma mulher lhe deu um livro preto, tirou uma foto e levou-a pela mão.

no templo, os braços do povo estavam pra cima. Lúcia sentia um quentinho no peito, do qual o nome não sabia, mas lá estava, quem sabe agora, finalmente, ela seria a-bençoada.

mas não se viu encontrada.

menina, você pergunta muito; menina, você se veste pouco; menina, cadê o dízimo? menina, esconde esse corpo! não dava mais; o quentinho esfriou; a porta se abriu, à rua voltou.

descobriu que vender bala rendia menos que vender quem era. Lúcia dos Olhos Brilhantes, sua nova fachada, e entregou-se de corpo e (sem) alma pro ofício de ser a-braçada.

não se encontrava.

os braços não estendiam mais; só os daqueles homens, que, dela, pediam “ais”. perdeu a paz. de si mesma só queria o esquecimento, olhar pra um espelho jamais!

Lúcia estava esgotada. não se sentia inteira, não se sentia nada. numa noite, nos quases da alvorada, conversava com o vazio, não viu o carro que vinha na direção contrária.

então se encontrou, no chão.

o músculo orbicular dos olhos se contraiu, rebaixando o prócero e o corrugador do supercílio, enquanto o zigomático maior distendeu-se pelo maxilar, fechando uma pequena fenda: tímida, mas, nada. os braços se estenderam na estrada.

Lúcia está no céu. os olhos ainda brilham, como os de amantes.

encontrada.

não tem mais nome, não tem mais corpo, é apenas luz. e palavras.

enquanto ela percorre um rio celeste, envolta por campos de morango, eu lembro daquele dia quando ela sorriu pela primeira vez, pro alto. quando ela sorriu pela primeira vez, pra mim.

mal sabia ela que, naquele instante, eu respondia: pequena, você sempre será amada.

(en)

30

deus, obrigado pela caminhada até aqui.

eu, que erro o passo, machuco pessoas, que não me reconheço no espelho; eu, que preciso de perdão, recebi 30 lindos anos de ti. obrigado, deus.

obrigado pela redenção. por minha necessidade dela. pela escassez eterna.

que eu consiga me esvaziar de mim, do egoísmo, da falta de empatia, da hipocrisia, e que sua presença cresça. que o amor faça sentido, ainda que eu não entenda. que eu o perceba.

que eu sempre lembre de que a grandiosidade da vida vem de ti; de que a graça da vida vem de ti, do alto – nunca de mim. de que qualquer fagulha de beleza é teu reflexo. de que “ser luz” na vida de outras e outros é, antes de tudo, buscar sua luz, perfeita, e refletir-lá, cá, em todo o lugar. uma pequena fração dela. a fração possível, a fração humana.

perdoa a minha humanidade. obrigado pela minha humanidade, que me faz sentir a dor dos pregos. e pela escrita.

que a busca cesse e eu me sinta destruído, apenas, quando o espírito transcender corpo, lágrima e frustração. quando reencontrarmos nossa natureza essencial – a imagem e semelhança de um ser feito de luz e palavras; quando, enfim, formos somente luz e palavras.

minha oração aberta de gratidão, em nome de jesus: amém.

seremos

e houve um momento em que o barulho era ensurdecedor, e se queria muito, e tudo, e todos falavam ao mesmo tempo, e diziam o indizível possível do querer a, mais b, mais c, mais d, mais disso, mais daquilo, e sempre mais, e nunca mas, e sempre, e tanto, que mesmo em face do maior enquanto, não se achava canto algum pra se parar e pensar, só querer – era tudo um grande, grato, gratificante, simples e sonoro – sim! sim, sim, sim, e assim que se pode perguntou-se “quem és”, e foi dito: “id”. por todo o mundo. e fazei o que quiser, tanto na judeia, na samaria, e até os confins da terra, pois nem tudo é da lei.

e houve um momento em que o silêncio era ensurdecedor. e tudo era de uma ordem incrível e um progresso estarrecedor; e não havia formas arredondadas, tudo tinha canto, conto e hora marcada, e havia rimas raras e bem articuladas – pense num mundo quadrado, pense, pense mais um pouco, pense numa caixa – não, pense dentro da caixa, calma, mais pra direita, isso, existem leis, regência verbal, vernáculo essencial, recatado, idolatrado – salve, salve! e perguntou-se “quem és”, e foi dito, sussurrado, super baixo: “super ego”.

e houve um momento em que se olhou no espelho. eu. meu. deus. eu, meu deus. eu sou meu deus, eu, seu, meu, eu? não seu. não sei. quem és. quem é. quem sou. eu.

e houve um olhar pro céu. que não era seu mas era possível. que não era meu mas me queria. e não queria tudo, todo barulhento;  e não me queria contanto houvesse silêncio. queria assim, leve, tal qual eu… estou.

e perguntei-lhe “quem és”. e foi dito: eu sou.

.
e todo o resto se aquietou.

.

(en)

nasci sem pai
nasci sem mãe
nasci sem lar
eu nasci
eu quero todos os órfãos dentro de mim
eu nasci assim

sou um órfão nato.

.

(en)

centelha #1

primeiro encontro

a respeito da fé, já li e ouvi alguns dizerem que escrevo o que as pessoas querem ler, que a fé cristã não é tão ~legalaize como eu costumo descrever, que não é possível ter cabeça aberta, fora da caixinha e ser cristão. para quem me lê e gosta: acredite, é possível sim!

a boa nova de jesus, da graça, da salvação, é bem gostável mesmo. se você não professa alguma fé, não tem religião, ou simplesmente não se considera cristão, provavelmente vai gostar de jesus – e consequentemente, vai se identificar com o que escrevo. a bíblia relata que a galera que mais andava e curtia jesus era a que menos tinha a ver com a religião ou fé daquela época. jesus nunca foi um liberalzão legalaize mas sabia lidar com as pessoas. elas sentiam seu amor, sua compreensão, e muitas se sentiam impelidas a mudar algo em suas vidas inspiradas pelo relacionamento com ele. outras, não.

a grande questão é que essa eventual “vontade de mudar” vinha após o encontro com jesus; após caminhar um pouco com ele, de ouvir o que ele tinha pra falar e sentir se, e como, tudo isso fazia sentido para sua vida. hoje, esse primeiro encontro com jesus é impedido. a gente quer falar por jesus. fazer nosso próprio sermão do monte em que as expressões mais ditas são “você tem que”, “você precisa de”, “você não sabe que”, “existem regras”, “não é oba oba”, etc. a primeira reação de quem ouvia jesus em sua época era a de se sentir atraído, amado por ele. hoje, um desavisado que passa por uma igreja, por um comício cristão, pelos debates de facebook sobre fé, vai se sentir um lixo – alguém inapto para o encontro com ele. entregam uma lista de defeitos que a pessoa tem e precisa mudar, uma lista de atitudes que precisa passar a ter, uma lista de palavras e termos que não pode mais falar, lugares para onde não pode mais ir, pessoas com quem não pode mais se encontrar, músicas, livros, filmes, ideologias, vestimenta, e quando todos esses requisitos forem cumpridos, o alto e musculoso segurança do templo sagrado da salvação tira a cordinha e fala “ok, pode se encontrar com jesus”.

isso, amigas e amigos, é mentira.

isso tudo não tem nada, zero, necas, a ver com vida cristã, com a graça e salvação. hoje, na era da graça, quando jesus está no céu e conosco está seu espírito, não existe pré-requisito, não existe lei alguma que você deva seguir para encontrar-se com jesus. não existe mais véu, biombo, grade ou catraca entre você e ele – seja o que “ele” for pra você. o primeiríssimo traço do cristianismo é amor, seguido de perto por acolhimento. se você não sente essas coisas vindas de alguém que se diz cristão, o problema é com a pessoa, não com o cristianismo. acredite!

interessante pensar que há dois mil anos os que mais se incomodavam com jesus eram os religiosos tradicionais, mestres da lei de moisés, aqueles que não faltavam um dia sequer na igreja, na sinagoga, os teólogos e pastores da época. hoje, o ciclo se repete. discursos que têm tudo menos amor espalhados por aí; ou ainda, aquele amor burocrático: tem que merecer amor, merecer respeito, merecer humanidade. meritocracia espiritual, sério? piada. você não tem que fazer por merecer – não amor, não respeito, não humanidade; não a sua essência. graça é exatamente isso. tua essência é aceita e amada faz tempo, desde mais ou menos sempre. não se esqueça disso – e pode tapar o ouvido e cantar “larararááá” para qualquer opinião contrária, eu garanto.

não deixa a gritaria aí fora atrapalhar seu encontro com jesus – e consigo mesma, consigo mesmo. encontrar-se com ele é encontrar-se consigo, de maneira leve e honesta. é enxergar-se por inteiro, quem sabe pela primeira vez. é deparar-se com a verdade, sobre si e sobre o mundo. por isso é um encontro tão belo. jesus não está na igreja. jesus não está na religião. não está na fé. não está na cruz. jesus não está. jesus é. por isso o encontro com ele só pode ser vivenciadoe por você, mais ninguém.

parece bom demais pra ser verdade? ah, a verdade é boa mesmo. o papo continua.

.

(en)

totacidade

arte de rua
é parte tua
e parte nossa

do fino
à fossa

e vai de lá à cá

das galerias
às galerinhas

do belo
ao beco

do longe
ao perto

do branco
ao preto

do cinza
à cor

do traço
à dor

do preço
ao pixo

do luxo
ao lixo
e ao luxo de novo

e do pincel
ao spray

da liberdade
à lei

da tinta
ao grafite

do espaço
ao lugar

da inspiração
à piração

da piração
à ação

do todo
à parte

do lodo
à arte

urbana
fulana
ciclana
profana
beltrana
mana

arte
que
existe

parte
que
resiste

à totacidade.  

 

(en)

presença,

lindo atributo humano. precioso. por incontáveis que sejam os lugares que podemos ocupar ao mesmo tempo pela tecnologia, o corpo só ocupa um. presença é dar-se de presente. estar com alguém, aqui, em corpo ao lado, é mensagem forte – dentre todos os lugares em que eu poderia estar, os infinitos espaços que eu poderia preencher, escolho estar onde você está, ocupar teu espaço contíguo, compartilhar, contigo, a experiência de existir e de poder olhar nos olhos sem filtro algum. estamos presentes, sente? ombros até se tocam, tão pequeno é o vazio entre nós. aqui (espaço), agora (tempo), desencontros sublimam. de concreto somos nós e nossa presença; nosso presente.

(preciosa, também, é a escolha de estar apenas consigo – dar-se de presente a si mesmo. solitude não é ausência de outros: é presença de si).

 

en

pai nosso, cristãos no céu,

“santificados”, sujam vosso nome.

veio a nós avesso reino,

~seja feita a nossa vontade~

assinam na terra como seu.

ó, pai nosso, de cada dia nos dá o “hoje”!

doa nossas ofensas assim como doemos

por quem tem sido ofendido.

e não nos deixes; caímos em tanta ação!

mas, livres… somos do mal.

 

em nome de jesus: amem.

 

(en)

eu sou

eu sou ela

eu sou manuela.

eu sou um ventre possível,

de um ventre provável,

de um vento infinito.

eu sou ela, eu sou tantas!

flávia, ana, que completa liliana,

que um dia

será cantora,

ou faxineira,

ou não.

ou solteira, ou de rondônia,

ou, simplesmente, aquela lá:

belíssima.

eu sou cecília,

papel, caneta e luta,

eu sou inteira.

eu sou ela

não sei fazer lasanha

mas sou ela

não tenho filhos,

mas sou ela

eu sou elas

eu sou todas

eu sou outra

eu sou esta

à imagem e semelhança

eu sou,

eu sou o que sou:

filha

de deus mãe.

.

(en)

ouve o dia

“haverá o dia”

eu sempre disse,

e houve,

e o vi como qualquer outro;

 

ouvi, então, aquela voz

que tem a cor

do nosso interior

dizer “tenta de novo”.

 

e houve o dia,

e era como qualquer outro,

mas eu o vi.

 

e vê-lo, assim, “havendo”,

fez com que o visse

de maneira que o dia, enfim,

houvesse.

 

e vi que era muito bom.

 

(EN)

o menino que nascera duas vezes

era um menino
que nascera duas vezes.

a primeira foi de ventre
de sangue
debaixo da ponte

a segunda foi de vento.

mãe na rua,
mão na roda
nasceu de dores difíceis
e logo se pôs a andar,
tentar, pedir,
e outros infinitos
infinitivos

dia sim não dormia
dia não semeava
es-colheu andar
com gente que
não tinha sonhos,
também.

e fez besteira,
daquelas de só fazer uma vez,
mas o dia era da farda
deu flagrante, xilindró,
de menor,
pela primeira vez foi pra “casa”.
penou pra viver
fez planos sem olhar,
anos e anos
de dedo na cara.
nos longínquos dezoito,
a ansiedade
pra ver como reagia
à liberdade, enfim.
pôs os pés pra fora

a mãe tava no céu
a mão tava no bolso,
vazio.

mas o peito não estava mais vazio.
o olhar, finalmente, subiu do chão
pro horizonte.
pela primeira vez na vida, ali de pé, ele sonhou.

o vento bateu no seu rosto.

e renasceu.

 

(en)

térmico

.
olhares desvanecem.

parece-se um ciclo quase a encontrar a outra extremidade.

olhar no olho nem precisa procurar para achar a alma.

alma no olho.

corações palpitam sossegados:

somos eu, ela, e eu e ela.

desatamos porque, desatáveis,

puxamos as cordinhas olhando um para o outro.

aos poucos,

fornalha em fogo brando,

uma ponta minha cá,

uma ponta dela lá,

puxando infinitamente.

acompanho com o olhar.

(EN)

mais cara

.
eu mascaro
tu mascaras
eu mascaro
tu mascaras

eu mais caro
tu mais caro

qual, qual é teu preço?

não, não esconde não!
tô te vendo aí na penumbra, atrás desse óculos de acetato e nariz postiço!

qual é teu preço?

e você também aí de faixa no olho, cara coberta, acha que me engana?

qual é o preço?
quanto você custa?
quanto custa, pra você, se esconder assim?

tem vergonha de quanto vale?
tem medo de barganha?

então mascara pra ficar mais cara?

não…

buscando a mais-valia da humana condição sem lembrar que o amor do mais perfeito é doação
– não tem pedágio, não tem senão, não é baile mascarado: mostra a cara, vai aberto – coração!

mas sei que tá errado esse mundo de ilusão;
não é desse jeito que se vive, meu irmão.

e me desculpe, por favor, o meu tom de acusação
– é assim que eu mascaro toda a minha solidão.

e chega. de rimazinha.
e desse ritmo batido que respeita a ortografia.

e me desculpem. a poesia.
é assim que eu disfarço toda a minha hipocrisia.

tirei. a máscara.
tirei. a roupa.

joguei.

no vento.
nu. vento.

nudez.

medo.

sem acusação.
sem poesia.
só resta eu.

só.

ouço alguns passos, tem gente vindo aí.
alguém me empresta uma roupa? rápido! alguém? por favor!

alguém. alguém tá vindo aí. um só.

olha meu estado, por favor!

quem tá aí?

tá vindo alguém que parece rimar com

luz.
cruz.
conduz.

que vergonha, tô pelado, tô sem nada. alguém, por favor…

oi?

pegou pela mão. posso ir assim? tá.
só queria saber quanto custa o passeio, porque eu tô uma desgraça.

ah…

é (de) graça.

 

(EN)

28

Hoje me dei conta de que faz 10 anos que fiz 18 anos.

Aqueles 18 da carta de motorista, exército, faculdade. Maior de idade – e na real é tão menor.  Faz 10 anos que tive meu primeiro emprego, a primeira grande frustração (vestibular), o aniversário mais normal do mundo. Eu jurava que seria num castelo em Viena (!), mas foi no McDonald’s mesmo. Faz 10 anos que percebi que a vida é mais real do que parece; que idealizar é bom mas doi, mas é bom. Faz 10 anos, enfim, que convivo com essa ideia de vida como jornada, como caminho, tentando fazer o melhor possível na condição de andarilho de suas paisagens.

Hoje, virando os 28, tô naquela fase de ser velho mas ser novo. Inicio conversas que terminam em conselhos, sem querer. Já consigo dizer “quando eu tinha sua idade” mas ouço muito também. Tô naquela fase de me angustiar menos com o futuro e mais com o passado, ao mesmo tempo em que o presente é tão claro: os ecos, daqui, se ouvem jajá. Tô naquela fase de amigos casando; de não me pressionar por isso mas pensar em como deve ser, como será. Tô naquela fase de não me sentir cobrado pelos pais, chefes, amigos, professores, mas por mim mesmo; de gostar de ser cobrado por mim mesmo porque me conheço e faço disso uma tarefa leve.

10 anos depois dos 18, agora pelos 28, tô querendo mudar aquela ideia de vida. Quero ser eu o caminho, a jornada, que a vida percorre. Quero pavimentar a estrada pra que a vida aconteça em mim. Quero moldar minha vida e não o contrário; quero que ela reaja a mim. Transcenda, seja, passe, mude, ecoe – em mim. Ter o controle pra descontrolar, se quiser. E ser percorrido por essa bela andarilha.

 (Daqui 10 anos conto como foi)

EN

tristeza

A menininha com sotaque lusitano chegou chorando para a mãe.

Mataram Jesus na cruz, mamã. Mataram ele.
Tenha calma, minha filha. Isso foi há muito tempo.
Mas mamã, é muito triste.

E de fato era. Tanta força nessa história de milênios. Tanta dor. Muitos dizem que há verdade; outros, inspiração. Alguma coisa houve ali que moveu pessoas e olhares para cima. Que distância tem do céu as mãos abertas da mulher que reza com rosto no chão? Quantos decibéis no choro da mãe que mora no viaduto e não tem pão pra dar ao filho? Quão rápida é a ambulância que socorre aquele senhor? E veio um cara falar de amor. Levantar a cabeça da mulher e tirar-lhe a culpa. Pegar na mão da mãe e dizer que ele cuida dos pequenos. Visitar o senhor assegurando-lhe, ainda hoje, o paraíso. Diz-se que na cruz sobrou amor. Não das mãos dos que a ergueram, mas das do que foi erguido. Penso que no turbilhão de sinestesias por que passava naquele momento, entre passados, presentes e futuros, por um milésimo de tempo, num derradeiro fragmento mental, ocorreu a Jesus a imagem da menininha de cinco anos a chorar sua morte dois milênios depois. A menininha que concluiria sua tristeza com a mais pura compreensão:

Tudo bem… algum dia ele ia morrer bem velhinho mesmo.

E o céu sorriu para sempre.

porção

Minha mãe conta de quando seu pai, Elias Nasser, ia com os três filhos para o bar beber SevenUp, lá por 63. Para Leilinha, Iana e Toninho era a festa. Andar com o pai, sentar com o pai, olhar para o pai. Seu Elias fazia tudo de rotina, sem deixar de sorrir quando os rebentos desatavam a contar seus feitos. “Briguei com Tó” “Brinquei com Paula” “Caí de bumbum”, todos riam. Mas na hora de sentar à mesa, ritual. Garrafa de vidro verde acompanhada por três copos. Uma garrafa pra matar sede quádrupla, que dinheiro à época era metade. Ou terço. Garçom pousava o vidro na mesa, estalando tampa fora enquanto sorria para os quatro. Seu Elias retribuía com semblante sereno, agradecendo mais do que pedia o razoável. Era homem sensível, seu Elias, sobretudo à vida que não lhe sorrira tanto. Viera humilde da Síria para o Brasil, encontrara a esposa mas também o álcool e um certo vazio. Era artista nato. Desenhava rostos e paisagens incríveis, sem ter nunca tido uma noção de traço. Era apenas dele esse talento. Dele e do mundo todo, que o perderia um ano depois de nossa história. De volta à mesa, ali está seu Elias erguendo com destreza a garrafa sobre os filhos. Era habilidoso com as mãos, mas não pudera viver de arte – sua arte intrínseca, eliástica, nasseriana: nos dias úteis, enrolava meias para revender no centro da cidade. Seu tempo, sua vida, sua força, a vestir os pés de boa gente com algodão de boa linha. Quinhão de mais-valia necessária à sobrevivência, que no caso lhe custara a arte e rendera uns tostões para matar com SevenUp a sede da criançada. Era esse o momento sagrado. Três copos alinhados. A garrafa levemente a deitar no ar, entornando gargalo à boca do primeiro copo. Líquido espumeava alegre no fundo do vidro, crescendo com chiado e bolhas. Subia um dedo e parava. Próximo copo. Subia um dedo e parava. Próximo copo. Mesmo ritual. Recomeço, que a meta era igualar. Níveis sempre equiparados, seu Elias fazia questão. Vidrados, os olhos dos rebentos auditavam cada movimento. Participavam fervorosamente da missa do pai. Ele, o capelão, a prover de cálice a igreja. Os pequenos, seus fiéis, balanricando os pés rente ao chão inalcançável. A garrafa reluzia verde; vinho incolor à boca dos recipientes, dedinho em dedinho até secar gargalo. A ceia estava servida. Bebamos em memória dele. A porção de cada um, sorvida num gole só. E limpar os lábios com a manga da camisa.

Pequena porção de vida foi que teve meu avô, seu (meu) Elias. Os dias de um e outro sempre contados à parte; não os meus. Nossos dias têm o mesmo nome. Carrego-o comigo nas letras e no caminho. Carrego-o na transgressão. Vontade de viver a arte por nós dois, vencer o mundo, vingar a perda. Fosse a vida mais generosa, teria-o agora por cima dos ombos a me ler. “Ame ler”, sussurraria. E eu explicaria que escrevo e sou o maior leitor – de mim mesmo. Eu lhe escreveria sempre. E ele me desenharia. O livro infantil que faríamos juntos até hoje me encanta. E assombra. À sua sombra eu canto. Hoje escrevo não apenas pelos 50 anos de sua morte. Mas para que, no dia do reencontro, criações possam se tocar.

Com amor,

EN.

A inocência

O nostálgico talvez seja nostálgico por querer voltar à inocência do que já foi. Viver no passado, recontar os dias, reviver as fábulas, sorrir, sorrir, e chorar. Chorar o rio que passou. As lágrimas são o rio e queremos mergulhar. Banhar-nos com água morna e limpa – aquela da banheirinha ou do quintal da vó. A vó, que linda. Já não é mais. Mas ainda é dentro da nossa nostalgia. A inocência mora no quintal – e ai de quem disser que não é mais. Eu moro nos desenhos da minha mãozinha. Aquele amigo imaginário que ainda mora no armário velho do quartinho da cozinha. Jamais sairá! Jamais sairá. O olhar sem malícia alguma. O querer sem desdém algum. São essas as crianças que Jesus chama a entrar no céu. São essas – somos nós. Hoje se pode alcançar a inocência que ainda está lá. Na biblioteca do bairro, no livrinho amassado; no desenho favorito, naquela foto de noventa e quatro. Não se vá. Não desista. Não abra mão, não chute o balde, não aceite que se perca de vista. É você, em todos esses anos; é você, a re-tornar-se. Digo a mim mesmo.

Nostalgia evoca inocência. Não à toa rima com poesia. Não à toa rima com nossa existência.

(EN)

catártico

.
nada fará sentido se não for pela loucura.

olhe ao redor.

percebe tudo confluindo para o norte?

e você, com medo da morte,

a seguir o fluxo antes que te gritem “volte à fila!”

e você se mantém

se obedece

se contém

se entristece

mas limpa a lágrima pra não levar advertência

– tudo, tudo, tudo é bom em sã consciência!

e você  crê nessa porca verdade

sem pensar na consequência

– chega de rimar!

gente que mente pra vender mais,

parecer mais

agradar mais

perecer não vai?

vai também – tudo conflui para o norte

como o fim deste texto que se aproxima…

ah, o texto.

o escrever.

limitado pelas palavras, pela sanidade,

quisera eu ser louco e trocar tudo por

vã liberdade.

.

e acontecerá.

(EN)

li que doi

.
é

aguar

teu líquido

líquido olhar, ah!

como é líquido teu passar

teu permanecer liquida meu agir

mas, mais que tudo, é líquido te alcançar.

teu barco-navio lá distante, indo avante, pelo mar

meu barco-jangada à deriva, chora as ondas, em céu-luar

e teu líquido, quem me dera, algum dia, qualquer dia, a brindar

com todo meu líquido, de sobra, que dia-a-dia eu tratei de preservar.

tudo líquido, tudo ínfimo, tudo desmancha, tudo evapora, tudo me molha

quando eu

só lido

com você

a sublimar.

.

(EN)

amem

.
não se medem coisas.

medimos nós mesmos

frente às coisas.

no mundo, é mensurável o que nos toca.

no mundo, tem textura o que se toca.

eu nunca medi

paz

viagem à disney

furacão.

eu já medi

saudade

amor de mãe

tribulação.

e o motivo, afinal, de toda poesia existir

é a busca

da textura

do amor.

(mil gerações passarão

tempo e bonança sobrevirão

toda a constelação de morte

toda a ressureição de vida

– tudo

e

– todos

milimetricamente medidos,

cada um no seu lugar.

e no alto de uma colina

debaixo de uma árvore

com cenho angustiado,

coração-amargura:

um poeta

ainda buscará a textura)

.

(EN)

A minha dança será teu pranto

.
Vejo o vento. Não sinto o vento, vejo.

Não sinto e vejo, apenas vejo – é aleatório e branco.

Sinto a lua. Não vejo a lua, sinto.

Não vejo e sinto, apenas sinto – é certeira e branca.

A história mais bonita da história

É o corpo a bailar pelado

Em noite de lua cheia.

Tem a fogueira e o mar

Tem areia e luar

Não tem fumaça, nem fumo, nem torpor

– Só mente e corpo, a rodar e a rodar e a rodar.

A dança chamou-se luz

Eu me chamei lucidez.

O movimento flui com o vento, é visível, como o vento, como o mar.

Ninguém o vê.

Ninguém o verá.

E na senda de cascalho e pedra, na altura do horizonte escuro

Onde o céu encontra a lua que encontra o vento que encontra o mar,

Todo o que é errante

Todo o que é incerto

Todo o que é perdido

Se encontrará.

.

(EN)

.
a real é o dinheiro.

comprar alforria das paixões patéticas

parcelar a frustração dos dias:

uma por dia

pagar o mês passado pra que não volte mais.

ah,

eu devia ter nascido Enrico.

.

(EN)

.
exatamente assim que se começa,

sem exatidão.

nascer não é morrer ao contrário:

morrer é nascer à milésima potência.

mambembe, o fim se aproxima num cachorro manso à cata de migalhas.

com a roupagem de um deus troglodita

que tudo começa

que tudo termina.

.

(EN)

Como escrever um poema

.
Não precisa de muito. Junte umas palavras, começo, assim, e deixe no início para chamar atenção. Advérbios caem bem.

“Exatamente assim que se começa”

Chamou atenção, precisa prendê-la. Brinque com um paradoxo.

“Sem exatidão”

Atenção retida, é preciso jogá-la pra outro canto do esperado. Surpreenda com assunto aparentemente desconexo do tema.

“Nascer não é morrer ao contrário”

Enunciado carece de explicação. Poeta não explica, expele – coloque o leitor à beira do abismo e unja-o com raro aforismo:

“Morrer é nascer à milésima potência”

Não o empurre ainda. Terminar quando tem que terminar é prosa. Poesia é contrário. Presente vem do inesperado – dispender beleza inesperada, isto é presentear.

“Mambembe, o fim se aproxima num cachorro manso à cata de migalhas”

E então você o empurra.  Do começo ao fim , o que se aguarda é queda. Vai durar três versos:

“Com a roupagem de um deus troglodita”

Fé surpreende o leitor desavisado, que agora mora em  seus versos. Permita-o morrer em paz.

“que tudo começa”

Permita-o morrer em paz!

“que tudo termina”.

.

(EN)

elogio da abstinência

.
dava pra ouvir

preferi não escutar.

cheguei a ver

preferi não olhar.

podia tocar

preferi não sentir.

cabia tragar

preferi não fugir.

ah, consequências doces da abstinência amarga!

eu conclamo

que me invadam.

.

(EN)

hemorragia vítria

.
de tanto olhar
meus olhos sangraram
de tanto apenas
…………..olhar
meus olhos marejaram
ditam teu olhar:
meia luz, sabotaram
de tanto apenas
…………..molhar
pedras duras singraram

.

(EN)

……………Tenho um segredo que se chama silêncio. A minha voz, a minha poesia oculta-o como um baú. Sou palavras, demonstro. Sou expressão e cadência, mas a essência é nada senão sem-voz.

Enterrada sob os versos de terra
sob os solos do verbo
sob o barro da fala
sob o intervalo das frases de areia.
De grão em grito, de tom em tons de granito, permaneço
secretamente
em silêncio.

……………E haverá o dia de se achegarem ao chão, cavarem a terra, pousarem as mãos nuas no segredo assim guardado. O dia haverá em que vão-me perguntar. E a beleza de toda a prosa será esta: não sendo palavra, calará.
.
(EN)

.
odeio

ex

coisas.

principalmente

ex

relacionamentos

dos outros.

delas,

dela.

odeio mais a forma com que

os outros [elas (ela)]

encaram suas

ex

coisas:

ex

quecer

jamais.

.

(EN)

.
– Eu queria uma verdade pra mentir por aí.
– Haha!
– Que foi?
– Que frase maluca.
– É profunda.
– É maluca.
– É profunda e poética.
– É maluca.
– Tá.
– Brincadeira. Eu gostei.
– Tu já reparou?
– O quê?
– Que quando eu tento aprofundar tu foge? Tu brinca?
– Você não gosta?
– Na real, não. Acho que, no fim das contas, tu não me acompanha. Pô, “que frase maluca”? É início de um poema que me ocorreu ontem à noite, tô louco pra escrever. Achei lindo, mas pra você é maluco.
– Nossa. Eu realmente tava brinc…
– É sério. Não quero ser grosso mas tô sendo sincero. Se fosse um filme tu agora ia me olhar, bonitinha, tristinha, eu ia reconsiderar, perceber que o amor (pigarro), nosso amor é maior que tudo e tal. E te abraçar, beijar, ignorar qualquer coisa contrária ao “nós”. Mas não vou, isso é uma merda. Odeio esses filmes. Odeio essa mentira.
– Você já reparou?
– O quê?
– Não há verbo pra verdade.
– Como assim?
– A gente afirma. Confirma. Averba. Insiste. Profere, declara, dá fé. A gente mente. Mas a gente não verdadeia.
– …
– Verdades verbalizam por si mesmas. Cada própria verdade. Cada vida que se vive, cada fala que se fala – cada auto-palavra – é verdade a verborragir. Prefixo idêntico não é coincidência. Ver-dade. Ver-náculo. Ver-bo.
– “E o verbo se fez carne”
– E sua palavra é a verdade.
– Desculpa eu ser tão complexado?
– Desculpo.
– De verdade?
– De verdade. Agora vá mentir por aí.

(EN)

Jamais vou tirar minha vida: ela já fez morada em mim (pelo menos em duas ocasiões; era pequeno, ajoelhei ao pé da cama, as mãos estavam juntas como um livro fechado. Na outra sentado na escada, grama em volta, tinha um livro no colo. Eram 15 de janeiro de um ano bom). Jamais vou tirá-la, mas não nego respeito aos que conseguem. Fácil generalizar na covardia. Impossível conceber angústia infinita. Você já concebeu? Angústia. Infinita. Eu sei que não. Tua vida é rasa, tua mente pequena. Não vai perscrutar o corpo auto-adormecido, jamais. Nem merece, vá embora. Vira a cara pro outro lado, vá ver televisão, passear com teu cachorro na rua.

A angústia infinita existe. É que a vida já fez morada em mim.

.

E.N.

ser alado

.
existe um ser alado

prisioneiro do meu homem.

a minha humanidade

o formata

condiciona

cada passo

e interdita

quase-voos.

até que este casulo abra

existirá um ser alado

prisioneiro do meu homem.

.

E. N.

Maria,

sinto lhe informar que o amor acabou. Andava murcho e calvo, cuidamos mal, esmoreceu. Como é que tinha dito padre Astolfo? Cuidas-te-vos do teu jardim e assim farás-vos-á flores prosperarem. Não era isso? Alguma coisa assim com mais mesóclises. Não cuidamos do jardim, Maria. Era tua e minha carga, não fizemos.

Não gosto da imagem do jardim. Gosto da imagem do gordinho. Você lembra? O amor é um menino gordinho. Tem que alimentar o menino pra se manter as bochechas, entuchar-lhe calorias com Sazón. Faltou Sazón, Maria. Faltou temperar o bife pro gordinho comer feliz e chacoalhar a barrigueta. Nosso amor não tem barriga. É esbelto, tem zero açúcar, IMC baixíssimo. Está sempre de dieta. Falo que te amo tal como compro pão. Virou rotina, Maria, da que se faz por obrigação. Amor não é pra ser assim – quando é, escreve-se esta carta.

Eu não te amo. Não quero mais te amar. Não gosto de gente mimada, amor é um gordinho mimado que quer tudo pra ele. E eu? E nós, Maria? Está acabando com “nós”. Não quero te perder, não vou te perder, muito menos pra ele. Não juramos ficar juntos até que a morte nos separasse? Só a morte, Maria. Te quero ao meu lado pelo resto da vida, só te peço isso: vamos desamar. 

Com amor (raspei a panela do que sobrou),

Ermínio.

.

E. N.

só hombridade

.
acordar sem pedras na cabeça

sorrir sem esquecer a noite

sentar sem cambalear a mente

vestir-se de leveza e vento…

ah, vontade dos sóbrios!

quero a ebriedade da arte (apenas):

assimilar um a um dos Teus

dias.

.

EN

madeixa

.
deixei meu corpo ser a ausência que um dia sonhei.

deixei os olhos cerrados para não ver, só sentir.

deixei a alforria da alma me tomar de assalto e gorjear,

deixei me deixar.

deixei me deixarem!

deixei-me deixá-la sem sequer tê-la tido,

uma noite, só.

– foi tudo de um vazio inacreditável.

.

E. N.

.
diz-se da vida: extraordinária! tão grande!

– calma, pequeno.

deixe a vida caber na humanidade.

fraqueje os senões

afrouxe os poréns

a vida, tão grande assim, passa.

passa também sua vontade de abraçá-la inteira com dois braços abertos dane-se impossibilidade física financeira moral sou jovem vou fazer vou vencer vou viver

vendaval leva tudo!

e mais leve, tudo vai ficando na vida.

– lance é encontrá-la grande, pequeno.

e abraçá-la enquanto houver densidade.

.

E. N.

ausente

.
sabe bem descrever a sede;

quero, sim, a presença daqueles que sentem.

sinto muito, sinto tanto,

subo na cadeira pra sair na foto e sorrir – sem te machucar.

sem ofensas ou gestos bruscos

apenas sofre e sorri, sentindo. sem ter tido.

sugere-se uma noite sem sereno:

salva e sã, mia

(como gato sem sono, como lobo à lua)

luar percorrido assim

no ar socorrido, ai de mim!

em sussurros

a ciência da nossa ausência

cede.

.

E. N.

.
de todos os medos que não tenho

o mais inexistente é o da perda;

nunca tivemos nada, jovem.

medo, sim, é o de ganhar

pensar que tenho

e me perder.

.

E. N.

cantares da pretensa alvorada

.
lá me vem Vinícius cantar no ouvido,

calaboca!

não se sabe mais do amor porque se casa.

não se sabe menos porque se não namora.

Eros, meu caro

não deixemos cair o amor nas mãos do casal-minuto

casal-mesclado

casal-de-luto

casal-melado

nem nas da farsa hiperbólica, choros e promessas

da tal paixão convincente

ilusória.

dá-nos antes i-luz-ão!

Eros, tua arte simplesca é nunca simplória.

navegar sentido àlguém requer mais que respirar – e nos mentem.

dizem que é fácil, tranquilo

– vá-se foder, Vinícius!

cante no meu ouvido o desencontro.

cante! cante-já a renúncia

mise en scène burra da sociedade, medíocre, pareada.

que é das pessoas ímpares?

que é das completas?

chega de gente-metade; ajuda-me a achar completude!

o perdão de cada dia dá-me hoje

dá-me a mão, a busca do pretenso sol envolto de dúvida, se quiser;

não peço respostas.

ilumine meu coração sem dor, deus-amor.

ilumine meu corpo indecente

e aqueça a alma

indiferente.

põe-me no teu curral de sonhos, cavalga comigo naquele sol.

cuidarei do teu aprisco.

cuidarei dos teus ímpares desígnios,

melindre algum.

sem choro nem paixão. compaixão é pra nascer, sem paixão se vive.

seremos razão, meu Eros. escolha e razão, e seremos um.

indivíduo eu

de mãos dadas com o fim.

.

E. N.

milissegundo

.
“Cada novo segundo é tempo de recomeço”

ouvi da Liliana,

não da sua voz mas do seu perdão.

Quando estou mais perto do céu

– do espírito que se move na face das águas e no meu peito –

recomeço a cada segundo

a cada primeiro

velho erro

e último

novo perdão.

Repetem-se as merdas,

transbordam-se as graças

sem ao menos perguntar o porquê

– ou quando é que tudo vai parar de vez.

Não sei, meu Deus! Obrigado por nunca perguntar, meu Deus.

Pouco tempo e muita graça,

segundo-após-segundo:

Teu segundo-começo que me deste.

.

E. N.

charme sem destinatário

.
sempre preferi andar sozinho

nunca cansei de mim mesmo

da minha companhia.

falo com você enquanto falo comigo,

medindo palavras

medindo você.

pode ser sina ingrata essa de eu querer me bastar,

pode ser psicossomática

ou apenas capricho que me haverão um dia de desonerar.

enquanto não vem eu só meço você

(não pode ser alta)

rejeito você

desdenho você

prevejo você

anseio você

racionalizo você

dentro do meu todo eu, bastado.

sou todo charme sem destinatário

e isso me encanta.

–  ainda encanta, Elias?

.

E. N.

ler mentes

.
possível é supor, bem perto chegar do que pensas.

ólho no ôlho, procuro enxergar sem que notes.

vão é transpor, todavia,  o calar que me intentas.

penso num verbo, assopro no ar que te encontres.

.

E. N.

a virada (ou letra para um samba marrento)

.
e o futuro onde está?

tá casaaado

a procura acabou?

bem no siiim

e o não tão sonoro?

à procuuura

de uma moça prendada?

de um sim

(jogo pra ganhar, torço pra perder de virada

é mal gosto na boca, sinal de que fui pra noitada!)

minhas malas, senhor?

já partiiiram

e os postais pra rever?

tão no chão

essa mágoa porquê?

esforçou-te:

em tirar do impossível o seu pão

– e bora lá!

(jogo pra ganhar, torço pra perder de virada

se bater as seis e eu não chegar – chama o guarda!)

pra quêêê chorar?

pra quêêê sofrer?

só me explica, senhor, onde foi que deixei de quereeer?

por ooonde vai?

de ooonde vem?

vou seguir teu caminho até [tum] chegar o meu treeem

– e vou partir!

(jogo pra ganhar, perco pra torcer de virada

o meu dia chegou, tá na hora: partiu tudo-ou-naaada!) 3x

.

E. N.

cem expectativas

.
trivialidade

esse falar,

só se olhar nos olhos é verdade.

trivialidade esse ouvir

– baixar guarda, sim, é vontade.

não consegui te falar aquele dia

quando ainda era jovem e podia,

como faz pra esquecer?

vive-se assim na amargura sem saber por onde

pela senda que ninguém sabe se não se acende a luz

– ainda que se ascenda, cegueira.

ah!

trivial esse ver

tentar ver com palavras

– eu tento, sem expectativas.
.

e minto assim pra dormir em paz.


E. N.

a S. P.

nos tempos do cólera

escreva escreva escreva! escreva, poeta de Deus, escreva hômi!

– diz a massa ensandecida

queremos  tua palavra, tua escrita, ó poeta!

a mensagem divina pelas letras no papel, leitura de fel e do bom mel dos deuses, ó menestrel!

nos escreva – pedem.

e escrevo:

 

“a”

 

ele começa! nos abençoa com a primeira letra das letras,

vejam que o poeta escreve!

início, alfa do ômega, princípio do mundo e das coisas!

o poeta nos abençoa com o início!

 

“am”

 

ó, poeta, que honra temos nós de te ler.

já são duas letras, o casal

– ying yang da perfeita harmonia da Terra

 

“amo”

 

singeleza tua, ó nosso guia!

dizer que nos ama, assim, no poema

declarar a nós teu amor vário e solto, tão lindo de rosto!

a face do teu amar nos dirige nesse verbo, tão terno, conjugado “eu amo”

assim, a nós, no inverno – singeleza e ternura, poeta, que tens para nós e

 

“amor”

 

enfim! enfim! ah, enfim!

povos, escutai! nações se prostrem! que o mar acalme sua força na bonança doce,

que os feitos dos homens se reduzam a memórias,

que nada aplaque a força das quatro letras proferidas aqui, Poeta. nosso Poeta, sejas louvado!

se desta poesia fazemos nossa vida, tu és agora o que nos cria;

causa primeira e fagulha perene de nossa causa poética!

escreve-nos a nós do teu amor, esse que te brota e constroi-se no peito e que acalma

 

“amora”

 

e que acalma os mares e…

e…

e que acalma…. Poeta?

ó, poeta! poeta que nos escreve, que nos profere a mensagem!

longe de nós desafiar tua vontade, tua caneta e teu papel voraz, mas é possível ter havido acréscimo de letra!

falávamos de teu amor e dos teus feitos, da tua glória amorosa que nos cria e nos ama e

 

“é amora mesmo”

 

e…

…e que. nos. ama? e que não nos ama? prefere fruta ao bel-sentimento? blasfêmia! não mais te queremos, poeta! poetinha! sem amor!

recolhamos, pois, as oferendas e despojos. galguemos um criador de mais respeito, mais semântico; que nos profira a verdade, a Verdade Verdadeira.

passar bem!

 

“amora é mais saudável. vão por mim”.

 

.

(en)

CDA

.
minha poesia é falha, Carlos.

falha porque… por isso.

porque tenta explicar.

porque tem porquês

de que não necessitava

e é falha por isso: necessita

(apesar de escrever ser, também, necessitar)

busco, Carlos.

pelo menos busco.


E. N.

deus, conjuga-se

No princípio era a palavra, e a palavra estava com deus, e a palavra era deus. Ela estava no princípio com deus. E percorria os campos e a boca dos homens, e a palavra estava no homem. E o homem tentou engolir a palavra pelo fruto. Tentou-se mesmo construir o algo mais alto pela palavra única; o algo mais “maior-que-o-homem” pra se ganhar os céus e chegar a deus. Mas deus já estava no homem. Era o verbo. Que não era o homem mas estava no homem. Que não era seu mas falava. Então a palavra saiu do homem. Foi escrita. Encadernada. Traduzida, publicada, revendida, assinada, constrangida, celebrada,  homicida, perdoada, merecida, abandonada. Esquecida. Humanizada. Nos livros e na doutrina, onde amor é verbo conjugado e homens ainda buscam o céu. Buscam-no pela noite, à mesa, palavra por palavra contada por caractere. Tela branca. Buscarão até jamais encontrar, a palavra que não está lá.

Quem sabe… as pedras.


E.N.

.
o instinto humano do

sexo

é o mais forte de todos os reinos:

quer

sente

sabe;

quer porque sente e sabe.


E. N.

rio

.
dizem alguns que não tenho vontade

ou que, se tenho, evapora.

vou te falar da minha vontade:

é molhada.

pensa num desejo corrente;

quero confluir no teu rio.

encostar gentil no teu leito,

encontrar você pela margem

sem mudar teu rumo

sem molhar meu corpo.

quero aguar teu curso com meu leito

sereno

molhado

sedento.

quero te encontrar na curva!

tornar afluência em rio de um leito só:

meu e teu leito,

até o mar.


E. N.

corpoativo

.
a coisa é tão vendável

as coisas

a arte.

olhei à volta, tudo à venda

meu sono

teu choro

as cadeiras

nossa inspiração

nosso trabalho!

veja a força que faz

o braço do capataz

fazendo bem feito,

no tempo,

valor socialmente agregado.

penso cá,

meus pensares domados

planilha

brifar ideias

– eu me vendo!

e nem quero ver.

toda essa coisa de dinheiro

todo esse alarde-cifrão em pleno dom gratuito.

a coisa tem preço, colega.


E. N.

um ano em que as coisas eram de uma beleza indizível

.
são essas malditas imagens;

menina de vestido, uns dezesseis.

menino, jeans e camiseta, dezoito e poucos.

todo aquele verde atrás

montanha com névoa cerrada e algum sol.

juro que nunca vivi nada disso mas sei que eles vão dançar

com a música do ar

e o pia-pia das árvores, ali no topo

– e eu nem serei ansiedade! nadinha.

ela e eu a dançar – imagina só, aquele vestido de pano dela e  a rudeza dos movimentos dele,

fazendo todo o sentido do mundo,

fazendo e criando todo o sentido

mesmo quando não houver

mesmo quando chover

mesmo quando ainda não existirmos como nós e eu quiser pensar que a ilusão é a primum-causa de todas as coisas e do universo,

mesmo assim – eu quero estar errado.

eu quero estar errado!

eu quero estar cercado

de incertezas

quando o vestido chegar.


E. N.

bodas de esmero

.
escrever poesia sem inspiração é assim,

casamento de 40 anos.

amar sem querer amar

mas querer

quase não poder

e mesmo assim amar.

sem inspiração olha-se nos olhos

põe-se o anel desgastado

“lembra? você não tinha esse calo”

“talvez tivesse mas você não via”

e riem um pro outro.

imagens assim me impelem a escrever,

sem inspiração.

(suspiro)

vez ou outra choro.


E. N.

palavra do autor #2

A primeira vez que tomei a palavra por aqui, para além do eu lírico, foi pra comentar a menção honrosa que recebi em cinco poemas no III Festival de Literatura / Letras USP, em 2009. Muito bem, volto a falar dela mas em outro formato: um livro publicado! Pois não, meus poemas, junto com os de outros autores premiados, viraram antologia  poética publicada pela Editora Humanitas. Gostaria de dividir com vocês essa primeira conquista editorial do empório. Que bonito. Os poemas foram escritos em 2008 e mal fazem parte do repertório dos meus favoritos, mas não nego o valor dessa antologia: a vida pela arte, pouco a pouco, a acontecer.

O mundo agora é corporativo, vida é solidão. Mas ali na esquina, ó… ali, no menos provável do momento-lugar, vida e arte a namorar. Vem, Carlos. Vem prefaciar minha emoção:

“- Ó, vida futura! nós te criaremos.”


E. N.

pacientemente

.
loganinamente

não.

longâni

não!

lon-ga-mi-na

tá errado.

lôn

sem circunflexo.

lon

isso, continua.

longa

hum.

longa

calma. pensa.

longani

boa! hum.

longanima

ótimo. tá quase.

longamina

não!

longanima

isso. tá quase!

longanimamen

isso! vai!

longanimamentw

próximo.


E. N.

anseio em sussurros

.
– …

– …

– Percebe isso?

– Hum?

– Tá percebendo?

– O quê? Vem cá…

– O silêncio.

– Hum.

– Quando se beija a boca se cala.

– Sim. Vem…

– O beijo cala… a boca. Aliás, a boca faz tanta coisa, tem tanta função.

– Já pensei nisso.

– Sério?

– Um pouco, sim. Boca multifuncional.

– Sim! Fala, canta, come…

– Assobia.

– Haha, também, e respira quando precisa.

– Também.

– Tanta coisa sai, tantas entram, palavras, comida.

– E o beijo?

– O beijo é o meio termo. Nada entra e nada sai, apenas permanece.

– Bonito.

– Talvez seja tudo isso junto e representa o calar, já que a

– Vem cá.

– Espera. Já que a fala é a função principal da boca. Comer é função importante, mas falou em boca pensou em fala.

– Eu penso em assobio.

– Ah, mas também é um modo de fala, entende?

– E o beijo não fala?

– O beijo fala, mas nessa linguagem outra. Prescinde palavra, som. Cala a voz!

– Cala a voz.

– Antes do beijo costuma haver uma conversa bonita. Um diálogo, ainda que pequeno, ainda que sussurado.

– E o beijo é o ápice disso tudo.

– E o beijo é o ápice, a consequência disso tudo, dessa construção. Nele é falado o que não se falou.

– Nossa.

– As bocas conversavam e o beijo cessa a voz…

– Pelo toque.

– Isso. Pelo toque une a fonte das palavras… são palavras que se tocam no beijo!

– Mudas.

– Mudas. Como os que se beijam, e assim se fala.

– E se toca.

– E silencia.

– …

– …

 

(EN)

euteamo

.
puro deleite fora viver esta vida

sem ti

puro de leite! branco, vívido, sem gosto.

amei minhas desgraças como amei a vida,

como amei você.

tão distante, tão fria – te amo!

eu te amo

te amo-lo a faca no esmeril

te cravo a faca no peito dócil

meu amor!

te deito no chão carmesim, teus lindos olhos fechados

tua boca

que não me beija me chama.

teu semblante que não me quer

me ama

suplica a vida

assim, assim, tão bela! enrubesce, toda sem graça

com meus tais modos

te vejo, enfim, minha

teu coração pára quando me vê

quando me sente aí dentro

pelo ferro que te cravo, minha aurora.

tua lágrima é minha

teu chorar é todo meu, como fora teu o meu!

casamos

minha noiva de branco e vermelho,

nossa aurora drummondiana!

teu gemer, meu céu agora, nossas núpcias

te amo

te cravo

– sou teu cravo, tu és minha rosa.


E. N.

paradoxo de Russell

.
este poema não é para ser lido.

pare de lê-lo, agora.

pare.

por favor, pare.

por que não paras?

por favor, não te avances nem mais um…

não te aguentas?

és movido, fácil assim, por algo além da tua força

– curiosidade desobediência afronta?

pare de ler! pare de ler!

pare,

pare,

pare de ler agora!

este poema não é para ser lido

e te obrigo a parar de ler, neste verso.

a última palavra que lerás será esta, aqui.

não te prestas pra leitor.

não respeitas poesia,

a pureza destas palavras que não devem ser lidas

e continuas!

ousadia, profanação!

pare! pare de ler!

como podes?

monstro! és monstro e não definirei teu nome.

maculas minhas palavras que não-se-leem,

adentras a virgindade literária com tua súbito-leitura

libido leitora

regozijo mórbido pelo caractere,

és sem caráter!

desrespeitas o véu das letras.

não te ouses avançar mais!

e não paras.

pare… de escrever.

paro.

paro de escrever que a leitura cessa.

deixe-me, ao menos, a sós com minhas palavras finais?

pelo teu bem

não devem ser lidas.

nãs as leia,

só peço este derradeiro favor:

não leia as últimas palavras.

porque, lê-las, como o fazes agora,

só faz de ti meu servo

e de mim teu mestre;

senhor da tua leitura,

o teu deus.


E. N.

poexiste

.
palavras não me escapam, nem uma!

que se pareça ainda com caco de prosa que sobra espaçada no branco, qualquer fundo, de escrita – mas não é. não me escapa.

antevi-a, bela e só

escrevi-a, bela e tão somente

criou-se

com meu ‘haja luz’ flanando no ar, a fluir – a se derramar! ah, do que chamo eu.

eu sou palavras!

sorrio dizendo, mais do que sou humano, mais do que sou feliz.

eu sou palavras!

silepse mesmo: parece errado não é, parece fora não é, parece gauche. transparece gauche, claro que é!

assim sou.

penso escrito, materializa; tua leitura me cria, eu creio, e tento descriar sentido crendo no caos. mas é cadência. palavra alguma escapou, eu quis.

me fiz, no erro do início com ‘me’. ço.

e fim.


E. N.

.
eu chovo                                                                   eu chovia

tu choves                                                                  tu chovias

ele troveja                                                                ela inundava

nós                                                                               nossa

vós                                                                               voz

reles peleja                                                               reles alcançava


E. N.

ex crita

.
meu dom é o das palavras

e amo dizê-lo assim, sem dor.

amo também as palavras e

com elas

perfaço meu dom;

– vai-te escrever, menino!

e eu vou.


E. N.

tudo vai passar

.
estamos fadados ao nosso tempo

e ao nosso lugar.

a família será a nossa até o fim de nossos dias,

ou a falta dela,

ou a sua abundância

(se Deus quiser haverá).

estamos fadados ao nossos amigos,

àqueles que conseguirmos conhecer:

tolerância aos que convirem, amor aos que nos virem

e assim será,

nesta vida que nos foi (fa)dada.

seremos nós mesmos até o fim das coisas

seremos

eu

e

você

no fim das coisas.

o fim

da nossa existência

não passará do comum – e chamaremos nosso

– nosso comum extraordinário, pois nosso, e só.

é tudo tão sopro assim

tão nada assim

nesta estrada humana, em que humanos divisam

o céu.

como não olhar pro outro, pro alto?

ah, o alto…

tornamo-nos Outro. e alados.


E. N.

diacho

.
amor se pede com afago

– ô riozinho manso passando ali, oh!

olhares respeitam demais

– pedrinha, água, pedrinha e água

ah, esse amor de riacho!


E. N.

original

.
quero voltar a certas origens

de espírito mais quieto e janela aberta de manhã pra ver o céu

– lembra do céu?

– meu o quê?

– não seu, céu.

– não.

era sempre (quase) assim:

um minuto ou dois olhando o céu antes de me trocar,

tomar banho e fazer o café.

lembro azul e grande, coisas brancas borrifadas aqui e acolá.

tudo belo e grandioso

e esquecido

como nossas origens.

como o Éden perdido no gênesis.


E. N.

florescência

.
vejo verdade nas flores.

podem até mentir uma pra outra

de soslaio, quando o sol se põe,

mas não para mim.

.

andar por um caminho florido

é sentir olhares de cuidado e consolo

todos verdade,

todos em coro,

aos que tento responder

com alguma decência:

olhar mais atento,

marcha em ralento,

mas é só contemplação.

é só contemplação humana.

.

o que me é caro, o que me é belo,

passa pela prova dos campos,

pelo soprar dos ventos e

o levar da boa-nova pelo jardim.

.

a essência da verdade

está, quem sabe,

na essência de ser flor:

ser que é, ser que faz ser.


E. N.
[2006]

do retorno

.
eis a vida! como não?

ei-la sempre

a guiar os rios da mágoa

revelar espelhos d’água

e evaporar,

num simples gesto de amar e sonhar

(e sofrer).

simples avança.

cadinho a cadinho,

neblina vai cedendo seu lugar pra redenção:

olha o céu a ressurgir!

tanta nuvem e passa luz, meu Deus!

oh lá deus-Sol

vem nos saudar lá de cimão,

e vai manhã e tarde

a começar do alto e terminar no chão;

ah Luna! doce lua,

vem cá que a noite é fresca de luar-ilusão!

noite e dia transgressão,

olhar em frente é ver mundo a me chamar

‘é viva!

vem, que é viva, rapaz!’

eu vou, é claro! sou rapaz e vou, é claro!

sou vivo e paixão.

bota-se os pés no eixo, pois não?

e deixa-se o lar pelo céu.

ah, exclamação de vida!

é terna onde encontra

e vence.


E. N.

grilhões de favos de fel

.
não saberia precisar quando mas tornou-se poetisa.

poema

que rima com a vida que profetisa – tão bem

com seu olhar de Apis mellifera que é.

não des-é, apenas o ser fala

e o que se ouve é canto nestas minhas ruínas de espírito manco

turvo

quase aposentado da aventura de buscar

(quando era boa de ir eu ia, mas hoje nem sei mais procurar).

me doei tanto

me doeu tanto

aí vem uns ventos tais de verbo assim escritos

e assopra

e quase para de doer.

porque quando se vê

é o próprio nós, eu, que tava fizemos tudo errado.

é a primeira, não a segunda pessoa!

no sacrossanto ofício do viver em que alguns de nós verborragem

mas que outros, tais tu, purificam.


E. N.

a D. V.

horse river

.
find me in the horse river

delta of sorrow and lust

and shadow

and dust

where i lay my head on water

to impersonate the riverbed

– it sings

i cry:

the horse river passes by

covering my watery eye

with the flow.


E. N.

shinkō

.
por mais que se tente não há volta,

não há possibilidade de renegação.

cuspo

e a saliva já é mar, poça de céu refletido

e em vez de vomitar eu me encanto.


E. N.

cântico vendado

O problema é a intensidade. Juro que tento mas não consigo ver somente olhos. Vejo-te passar, instante seguinte está de branco – branca, como eu.  É o teu olhar. Não apenas me olha (quem dera), desolha. Quero te mostrar quem sou, o quanto sou bom, o quanto sou divertido, o quanto sou poeta. Vem, traz o olhar pra cá… isso. Olha no meu olho e escuta. Escuta como sou poeta, escuta minha palavra escrita, agora escrevo pra você. Olha pra cá, por favor. Só dessa vez que nunca chega porque está sempre correndo, sempre no outro vagão. Sempre de mão dada com outro, do outro lado do rio. Teu defeito é esse de não querer olhar, não faz sentido. Você é corajosa. Consigo saber disso só de olhar, acredita? Então não pode ser medo. Ou o medo é justamente de eu olhar e te enxergar? Não faz sentido. Olha pra cá. Assim.  Vejo nos teus olhos um passo além, eu dou esse passo por você, vou na sua direção.  Entende? Avançar na sua direção, invadir teu espaço, tem que significar. Tem que significar! Mesmo que vire o rosto e nunca mais me veja, tem que significar. “O coração fala, fala a todos sem distinção, de maneira doce e educada”. Não foi isso que eu escrevi? Você leu, tenho certeza. Se não de mim de alguém, da dor. Meu deus, a dor! Onde está essa voz em você que só eu escuto? Por que você também não ouve? Parece ouvir mas não crer, ou não entregar, logo você que eu escolhi olhar. Logo eu, que sempre escolhia não olhar.

Você me olha. Eu sei que você me olha, olhar tem peso. Vai pro meu ombro como um fardo que boi carrega, mas o boi não sabe que é fardo e carrega carrega carrega, não chora se não chegar. Não vai chegar nunca e nem sabe disso, não chora. O teu olhar é fardo e eu sei, e eu quero, mas você não me dá.  Eu quero! Eu quero o teu olhar de fardo posto sobre meu ombro, quero sentir seu peso e ter que inclinar meu corpo pra aguentar. Vou dobrar um pouco os joelhos, entende? Pender meu dorso pra frente e acomodar teu fardo em cima do meu lombo de homem que eu aguento. Talvez você não creia, mas eu aguento. Talvez você me veja lembrança, mas eu aguento. Talvez você me veja mais um igual aos outros que não aguentaram. Mas eu aguento. Ainda é medo? Eu assimilo. Infelizmente assimilo, admito que isso tudo começa a perder a graça. Era graciosa até pouco tempo, juro, mas agora eu só queria vomitar-te de mim e acabou. Não te ver branca. Vandalizar meus olhos. Você me olha e eu penso que me quer – jura que é só engano? Você me olha e não me quer, é isso? Eu peço então que não me olhe se não quiser.  Talvez seja essa a solução e vou fingir que acredito. Costumo levar a sério, o problema é a intensidade. Eu vejo demais, intenso demais, olhar intenso é pra mim demais quando é de menos, deve ser isso. Hoje é você, amanhã era ela.  É só um relance pra ser de novo ontem, tudo ontem, e não vai chegar. Nunca.


E. N.

verdade

.
Era mercadoria. Mas daquela que não se pode comprar. Deram um nome bonito, tentaram rimar com saudade. Tinha preço, porém. Não foi pago por ninguém.


E. N.

pera uva maçã salada mista

.
Encontrei-a em cima da mesa, toda oferecida e comestível.

Pele lisa, amarelada, aparentemente doce. Muito doce. Era a última da cesta, a última e suculentíssima pera! Quis devorá-la ao primeiro olhar, peguei-a na mão com facilidade incrível. Era leve, madura, da mão à boca um só movimento – dentada master… mas não. Não a mordi. Contemplei-a por alguns instantes: pera periforme, amarelada e lisa. Por que não? Coloquei-a de pé na mesa, com a parte mais gordinha pra baixo, aquele cabinho preto pra cima e ali ficou ela, em cima da mesa, olhares de pera.

Pera.

Queria conversar com ela. Não, não venha me julgar! Não é maluquice  (e se fosse, cada um trate da sua). Queria conversar com a pera, papo de homem e fruta.  Parecia ter tanto pra contar! Histórias alegres, cheias de infância e frutose. Imagine uma pera a conversar, desbunde! No mínimo haveria o mértito de ser inédita a conversa. Sem delongas humanas, papinho furado, “9dads?”. A conversa em si seria novidade, ora se não. E conversei. Tentei, aliás. Padronizei a linguagem:  silêncio. Olhei-a profundamente (fiz dois furos pra chamar de olhos) e me calei. Seria a absorção máxima. Tudo o que ela poderia me dizer naquele silêncio patético, eu ouviria.

Fitei-a.

Sua forma, o cabinho, sua cor, seu aroma, adentraram minha mente em níveis incríveis de assimilação. Nada do que aquela pera era ou podia ser escapava ao meu entendimento; era um algo domado pelo meu intelecto, um ser despido de segredos ou misticismo – a pera não era se  não o que eu sabia que era! Mas faltava o diálogo. Captado estava o emissor mas, e a mensagem? Fitei-a mais profundamente, aproximei o rosto e seu aroma ficou mais forte. Minha visão a olhava, olfato aspirava, tato sentia… mas e o ouvir? Seu silêncio nada me dizia, mesmo com a proximidade, mesmo com meu paladar aguçado, a suculência em minha boca, a cada dentada uma descoberta de sabor, mas nada de resp… E sem perceber comi inteira, de cabinho a rabão.

A pera assimilada se foi, sobrou apenas uma carcaça cheia de caroços. Ela ia dizer algo, tinha certeza! Mas a lixeira foi seu destino, pobre pera.  E logo que a arremessei, e seu corpo disforme fez “tchá” no saco de lixo, entendi tudo. No final das contas, havia conselho nos entremeios da conversa:

Ex-pera.


E. N.

serrote

.
vou parar de contar as minhas histórias

os meus amores

vou começar a viver as minhas histórias

os meus amores.

vou viver e amar de maneira tão inusitada

que nem vai parecer que vivo – ele não ama!

tanto define-se, pouco existe-se.

falta beijar menos

amar mais

falta querer menos

amar mais

falta pedir menos

amar mais

falta sorrir menos

amar mais

falta viver menos

amar mais

falta amar menos

viver mais

e

(diacho)

falta fazer menos poesia.


E. N.

jamais um

.
de que minério é feito o amor?

em qual ministério baseia-se a dor?

não é mais-sério se for do coração:

findo o mistério, termina a paixão.


E. N.

rebanho de verso

.
uma (sagrada) anunciação

mas não de Anjo Gabriel.

esta

veio sob um manto verbal

de que me fala o

protetor.

eis teu nome, teu chamado,

e as palavras no teu rebanho estão

seguras.

chamas-me poeta mas

em teu espírito

reside a aura de um pastor de versos.


E. N.

a G. J.

contraparte

.
hoje é dia de arte sem açoites

quase sem restrição

(o corpo ainda é carne, há restrição).

os olhos serão luz

na treva de uma angústia a declamar.

haverá quem me ouça,

haverá quem me julgue,

haverá alguém

do outro lado do rio de verso.

e o verso

será diálogo convalescido

que alcança o que na prece se perdeu.


E. N.

spirit in the waste

.
i saw them coming in pairs.

not stealthy enough, they were there to be seen

in pairs

unawakened.

reach them in my condition seems

undoable;

what can i do besides poetry and weep?

i weep

i write

i keep

and i desire,

because it is still desirable (until when, i do not know).

i saw, they came in pairs.

to become one of them

i must find someone

or split myself

and i keep splitting.


E. N.

sereno

.
não é suave o seu toque

nem desejável teu olhar

porém

os quero mais que tudo.

– tempestade que se avoluma a achincalhar meu barco e  vocifera:

amas-me por te fazer sentir que és vivo!


E. N.

.
súbito

cessa o canto.

ah, fluidez!

onde te encontras?

busco-a, macia e coesa,

dentre os detritos de verão.

e vêm anjos

(vejo-os longe mas vindo)

a se porem no abismo

entre o engano

e o céu.


E. N.

bossa trovadoresca

.
dos nossos segundos eternos, insensatos, surte uma fala que diz: explosão!
as cores saltam, as aves voam, nem tudo é ilusão.

e no teu olhar denso, no teu olhar fundo,
veem-se desenhar subespécies desse amor vagabundo

mas presente
(vale mais presença fria que calor ausente?)

o que quero é mágoa, o que tens é água nos olhos de sal.
do mundo é viver de lembrança e cantar a esperança: “livrai-me do mal”.


E. N.

qual lei-mar

.
vem e; vai
vem e; vai e vem
vai
das ondas
e a cada ciclo
cascalho novo
rebenta rochas
areia do fundo

quando vão
são aventura e vastidão
horizontes vencidos
– escapam, alcança-se, escapam
e mundo conquistado.
conquista-se com o ir
e o ir é
lançar-se à maré.

então vêm e são nossas
somos-nas, nós mesmo,
a retornar,
assimilar o tudo
em cada parte
do nosso nada, ou quase
– saudade
de cantos vários.

e nesse bailar de águas,
nessa redundante
fuga
a vida constrói-se
mais rica e profunda
no transpassar fronteiras
para além
do além-mar.

o subir da maré
– o aguar do curso-mar
é avançar
sabendo-se ter de
voltar
sem saber pra onde
que a praia é outra
o rumo é outro

o vento muda…
a água é
nuvem
vai; e virá.


E. N.

a R. L. [2009]